Eita… Porque eu vou te contar: é uma super experiência, hein…

É bem verdade que é uma experiência absolutamente “comfort-less”, especialmente porque, se você reparar na foto, o banheiro mais próxima fica.. hã… longe….

Mas em compensação, a “vista” da sua “janela” de manhã é algo assim… indescritível.

Só é preciso explicar que, independente da experiência do acampamento ou não, conhecer o Western Desert (ou a parte oeste do Deserto do Saara que fica no território egípcio) é uma experiênca lindíssima – falamos dela neste post – mas logísticamente meio complicada. As “bases” onde os turistas pernoitam, tomam banho, comem, etc, e onde os carros se recarregam de comida e combustível são os oásis espalhados ao longo do deserto.

Ah, esqueça as imagens idílicas de palmeiras verdejantes e cascatas cristalinas em pleno deserto. Os oásis estão mais para cidades bem humildes e cheias de areia. Uma exceção é o oásis de Siwa (mas que já já falaremos dele).

Os principais oásis são os de Dakhla, Bahariya, Farafra e Siwa, mas até o trajeto de um para o outro inclui horas de estrada, em todo aquele mundaréu de areia – e para chegar em alguns pontos principais do deserto é preciso pernoitar.

Mas a experiência é única.

Os preparativos são importantes: os próprios guias avisam com antecedência de um dia o que devemos levar para o pernoite no deserto. As dicas são, basicamente:

  • Água. Pelo menos duas garrafas de 2 litros por pessoa. Embora, geralmente, rola a proposta de todo o grupo da excursão rachar a compra de algumas caixas de garrafas de água, o que não é má idéia;
  • Lanchinhos como biscoitos, por exemplo. Chocolate também rola – mas lembre-se que com o calor a chance de você comê-lo todo derretido é enorme.
  • Roupas: a dica aqui é separar numa mochila pequena o que você for usar por um dia durante o acampamento, e deixar o resto da bagagem lacrada ali em cima da van. Além de economizar o estresse subindo e descendo mochilas pesadas o tempo todo, evita ainda de ficar entrando (muita) areia nas suas coisas. Você estará no maior deserto do mundo, lembra?

Tudo pronto, empacotado? Bora. São duas vans que costumam acompanhar a viagem (se uma enguiçar ou atolar, a outra presta suporte) e ambas se dividem carregando tanto os pertences da galera, quanto os colchonetes, lonas e estrutura do acampamento.

A visão dos carros é mais ou menos essa:

Geralmente o acampamento é feito em algum lugar saindo do oásis de Bahariya e antes de Siwa (neste post aqui falamos um pouco do roteiro, bem como da empresa que organizou), em algum ponto do White Desert. Que, por sua vez, é assim chamado por ser uma área em que a areia é toda branca (ooh!) e onde existe uma série de formações rochosas erodidas pelo vento, dando origem a formatos curiosos. Dá para ter uma idéia aqui nesta foto abaixo, e neste post, que explica com detalhes os diferentes pontos do Western Desert – que não, não é só areia.

Ah, inclusive, para quem acha que é só um bando de areia e pedra, foi nesse deserto que foi filmado os primeiros momentos da propaganda da Nikon (a parte “Eu sou Marco Polo”). Detalhe para o nascer do dia – parece que se está em outro planeta.

Estrebuchei quando vi isso. Sim, eu sou doida. E amo desertos. Pronto, falei.

O acampamento é montado geralmente perto de uma grande pedra (serve para proteger do vento e, opção mais provável, servir de banheiro). Os dois carros dispostos em “L” fazem a proteção, e uma lona beduína é armada, formando quase um quadrado. Isso protege bastante do vento, e no meio são dispostos vários tatames, para proteger da areia e preparar o chão para a colocada dos sacos de dormir de todo mundo (sim, recomenda-se que cada um leve o seu).

Galera acordando do acampamento. Ah vista não é lá aquela belezura (nunca é, assim que você acorda, convenhamos). Mas foi seguro e confortável (na medida do que um acampamento pode ser).

Ai, mas é assim, todo mundo dormindo junto? Eca!

Sim, é. Por isso chama-se “a-cam-pa-men-to”. E é uma noite só, pronto. Curta a experiência. E sem frescura, please!

E à noite, os guias acendem uma fogueira no meio da areia e fazem toda a nossa janta: arroz com lentilhas, uma salada deliciosa de batata e frango assado na fogueira – um dos melhores que eu já comi na vida. Inclua-se aí restaurantes, também.

Ali aprenderíamos, como aconteceu em várias noites, um dos principais programas noturnos dos egípcios: uma fogueira para proteger do frio, uma chaleira de ferro em meio às brasas, fervendo com o nosso chá, uma “sheesha” (ou narguilé) e um bom papo – as vezes acompanhado de música árabe.

E, sobre nós, o céu mais estupidamente estrelado que eu já vi na vida. Uma celebração (com direito a várias estrelas cadentes nitidamente caindo sobre nós) da descoberta de que os momentos mais deliciosos que a gente leva com a gente são também os mais simples. E abstratos. E inesquecíveis. E inexplicáveis.

Em tempo: isso aconteceu (por coincidência, e não planejadamente) exatamente na noite do dia 24 de dezembro de 2010. Natal, portanto. E, por mais inóspito que fosse o lugar, ninguém do grupo questionou qualquer coisa por estar ali. Todos felizes. De coração. 

Foi a noite de Natal mais interessante que eu já passei. Em paz e bonita. Acho que é  porque a gente descobre que o Natal de verdade está mais dentro da gente do que fora. 

Ah, eis um breve diálogo que rolou por lá, antes de acamparmos:

– Vem cá, dormir aqui é perigoso?

– Não – responde o guia.

– Ah, tem certeza? Não corre o risco da gente ser assaltada por bandidos, atacada, morta? Quer dizer, a gente tá aqui no meio do deserto, não tem para onde fugir, fica tudo escuro de noite… E se acontece alguma coisa???

– Não, não tem esse risco. O país depende do turismo, e existem muitos acampamentos semelhantes ao nosso espalhados aqui pelo deserto. Todo mundo que opera no deserto acaba se conhecendo, porque tem que registrar a entrada e a saída dos veículos. O pessoal daqui respeita e já está acostumado a trabalhar assim.

– Mas, sei lá, e bichos? Não tem nenhum bicho perigoso? Uma cobra? Tenho pavor de cobra!!! – a pessoa insiste, já suando frio por antecipação.

– Sim, tem cobras, mas mesmo as venenosas fogem da fogueira, não atacam um grupo grande assim, e a gente já conhece essa área de cá, é tranquilo.

O guia continua respondendo as perguntas, impassível e todo trabalhado na vibe “relaxa que eu sei o que tô fazendo”.

– Mas e bichos maiores? Não tem nenhum? Ai, ficar aqui sozinha me deixa nervooooosa…

A voz falha. A pupila dilata. O ser humano não sabe o que fazer com as mãos. 

– Não, só tem a raposa do deserto, mas ela se assusta fácil. Muitas vezes ela se aproxima é para roubar os restos da nossa comida e foge em seguida. Não se preocupe.

– Ai ai ai, sei não… Não tem nenhum bicho perigoso? Nada, nadinha? Impossível!! Você está escondendo alguma coisa da gente!

– Bem, na verdade, existe uma espécie de escorpião egípcio que vive nos desertos.

– AI MEU DEUS! Jura? Nesse deserto aqui?

A criatura começa a ter uma síncope.

– Sim.

– E ele pica pessoas?

– Pode acontecer.

– E se ele picar a gente?

– Você morre em 3 minutos, no máximo.

Pronto. Piti. 

– AI, MEU DEUS!! Ai ai ai ai, como é que você me diz isso, assim, tranquilo?? E se acontecer isso? E se aparecer um escorpião? E se eu não ver, esse escorpião me picar no meio da noite, estiver todo mundo dormindo, eu não conseguir chamar ninguém a tempo, e ainda tiver que subir no carro, e como a gente vai fazer para conseguir um mínimo de socorro, aqui no meio do deserto…! E eu vou ficar aqui, sem socorro, até morrer…! E aí, como é que eu vou ficar??? O que a gente vai fazer se isso acontecer?

O guia, baluarte da paciência, dá uma baforada no seu cigarro de palha com toda a calma do mundo e diz para a pobre alma:

– Maktub – e aponta para o céu estrelado – estava escrito.

Em tempo: esse diálogo aconteceu. Com Maktub e tudo. E eu achei por bem nem entrar na conversa. Mas, por via das dúvidas, reapliquei duas vezes o repelente e fechei bem vedadinho o saco de dormir. Vai que não custa nada, né?

Comments

16 COMENTÁRIOS

  1. Maravilhosa a experiência!!!!! Estou pensando em ir ao Marrocos em abril do ano que vem e adoraria participar de um acampamento assim, só tenho achado coisa de 01 noite…Vc fez com grupo, certo? Por favor, vc poderia me dar as dicas de como contratar tal aventura!!!!!? Muito obrigada e parabéns!!!!!
    Bjs
    Daniele

    • Oi, Daniele! Este passeio estava incluso no tour que fizemos, pela Intrepid Travel (http://www.intrepidtravel.com/). Dá uma olhada neles, eles costumam ter excelentes roteiros com essa pegada de aventura, e alguns são por mais tempo. Mas acho que dormir uma noite só no deserto está de bom tamanho. Ficamos 6 dias no deserto, e a maioria das noites dormindo em hotéis e pequenas pousadas nos oásis, mas acampar mesmo só uma noite. Veja com eles, eles podem te informar se tem mais opções.

  2. Hahaha. Adorei o diálogo final no acampamento.
    Confesso que depois de ler todos os seus posts, estou decidido a ir sozinho pro Egito agora em novembro pela Intrepid tb. Só falta decidir se faço esse mesmo tour seu de 15 dias ou pego o de 9 dias que vai pra Jordânia e termina no Cairo. Ambos com acampamentos no deserto. Preciso fazer isso!! 🙂

    • Fernando, que bom que gostou! O Egito é mesmo fascinante e a Intrepid foi uma excelente escolha – eu não a conhecia até então, e lá descobri muitos estrangeiros que já estavam fazendo sua terceira ou quarta viagem com eles. Ou seja, a indicação é boa! 🙂

      Uma sugestão? Seu roteiro vai depender dos dias disponíveis que vc tem. Eu fiquei 18 dias por lá, 15 no tour e 3 no Mar Vermelho e Jordânia, por conta própria. E desde já falo: a parte melhor do Egito é o Western Desert e o Mar Vermelho (sendo que este último dá para ir sozinho, sem tour. É até bom pq vc tem mais liberdade). Cairo vale a pena por causa das pirâmides e o Museu do Cairo, mas o resto achei meio caótico – e se pudesse escolher, focaria mais os meus dias nso outros passeios. Tente ver um roteiro da Intrepid que inclua o Western Desert, Cairo, Luxor e Aswan (que já será muito bom), e se tiver a chance, fica uns diazinhos em Dahab, no Mar Vermelho. Tem day-trips saindo para Petra de lá.

      PS: Tô devendo um post de Dahab e Petra, explicando como ir para lá por conta própria. Prometo fazê-lo em breve! 🙂

      • Então… Só tenho 15 dias, infelizmente. Pegando esse tour de 15 dias com ida pro Western Desert, não me sobra mais tempo pra outra coisa e terei que cortar Dahab. Porém se pego um de duração menor que não inclui o deserto, fico com tempo sobrando no Cairo e posso tentar ir a outros lugares mas não sei se é fácil ir por conta própria para o Western Desert (ou conseguir bons tours facilmente por lá) .
        Acho que acabaria aproveitando melhor meu tempo ficando direto no esquema da Intrepid. Principalmente por estar sozinho. Assim, deixo o Mar Vermelho, Sinai, Wadi Rum e Petra pra uma outra oportunidade.

        • Pena que você não dispõe de mais tempo! Sim, esse tour da Intrepid é ótimo, mas de fato, é melhor ir ao Western Desert com eles do que por conta própria, que é bem mais difícil. E acredito que você vai gostar do grupo sim, a Intrepid costuma reunir bons viajantes e é bem provável que você vá divertir-se e fazer amigos! Aproveite e depois me conte como foi! 🙂

  3. Clarissa!! Voltei ontem da minha viagem ao Egito. Passando por aqui só pra dizer que a viagem foi Sensacional!!! Fiz vários amigos por lá e o guia foi ótimo.
    Fiz o vôo de balão em Luxor, acampamento no white desert com várias raposas visitando de noite, passeio de felucca. Nadei em oásis e no rio Nilo. Visitei inúmeros templos, tumbas e pirâmides. Comi muitos Falafels, Koshari e Shawarma.
    O Egito é mesmo imperdível. Foi tudo perfeito com a Intrepid. Valeu a dica.
    Só ficou faltando mesmo conhecer Dahab e a península do Sinai. Mas fica pra uma outra viagem.
    Bjs.

    • Fernando, que ótimo saber disso? Gostou bastante? Tirou fotos fantásticas (o deserto é impressionante, né?)?

      Fico muito feliz das dicas terem dado certo! Mas conte uma coisa: você chegou a pegar alguma confusão por lá? Como os ânimos políticos recomeçaram, as pessoas têm me feito essa pergunta.

      • Gostei muito. Tirei muuuitas fotos. As paisagens do deserto são lindíssimas!

        Não peguei nenhuma confusão por lá. Tudo funcionando normalmente. Aparentemente com menos turistas que o usual e as pessoas que vivem disso muito preocupadas com as repercussões dessas notícias políticas no exterior.

        A gente via na TV de lá o tempo todo mostrando as manifestações na praça Tahrir, mas não era nada demais. Cheguei a passar lá perto. Muita gente reunida com placas e etc causando muito engarrafamento e só isso. Já vi mais confusão na cinelândia, no centro do Rio, por exemplo.

  4. Comecei a ler pro marido o seu post…ele achou legal…não havia nem chegado a parte do escorpião e ele já havia falado: O que dormir no deserto? Tem escorpião lá! Continuei lendo pra ele e ele me responde :Me põe fora dessa. Pode ir sozinha! Eu me rachei de rir! Mas adorei a sua viagem, vou favoritar com certeza!

    • hahaha! Ana, olha, é acampamento é mesmo bem tranquilo, e a história do escorpião, mesmo tendo por lá, creio que foi mais para assustar a turista que estava perguntando demais – porque o acampamento é feito ao redor de uma fogueira, e em geral animais assim não se aproximam do fogo…

      Mas enfim… É um risco, mas a experiência é válida! E a história é divertida mesmo!

      Que bom que gostou! 🙂

  5. oi, ainda não esta nada decidido mas devo ir ao egipto no fim de setembro e lá vou ficar uma semana certa, e estou super ansioso pois é um dos meus grandes sonhos, e como são 7 dias, quero aproveitar tudo muito bem aproveitado… como posso me inscrever nesses grupos para ir ao deserto? e noutros grupos de passeio? andei a pesquisar mas é tanta informação que uma pessoa não sabe qual escolher ou confiar, prefiro perguntar para alguém que já lá esteve.
    õbrigada

    • Vando, eu não sei se eles ainda estão fazendo esse tour pelo deserto em virtude da situação de segurança estar meio complicada por lá. Eu fechei com essa agência aqui: http://www.intrepidtravel.com/. Ela só trabalha com guias em inglês, mas é bastante segura e devem saber orientar sobre o tour pelo deserto – e inclusive, se ele ainda está acontecendo!

      Um abraço!

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