Visualiza: uma cena no deserto, com as Pirâmides ao fundo, você “lhéééndo” em primeiro plano e… falta um camelinho passeando ali no canto, né? Só para, sei lá, só para dar aquela “ambientada” na cena.

Hummm, não. O deserto tá “over”. Troca as areias e a Pirâmide por Jericoacoara, substitui o camelo por um jegue e pronto, deu no mesmo.

Voilá. Sua cena de férias está pronta! 🙂

E a gente conseguiu, nessa brincadeira, lançar um ponto: tem alguns destinos que, por si só, já incluem no pacote um bicho qualquer como figurante, quase que decorado como produto típico, a ponto de, hoje, a gente não conseguir mais nem pintar a cena sem ele.

Tipo, como pensar em Cancun sem golfinhos, Egito sem camelos, Amazônia sem bicho-preguiça? É quase como ver a Disney e não achar o Mickey.

E aí entram as maravilhas do mundo das vendas nos destinos turísticos: a gente passeia, tira foto, posa, faz “owwwn”, tudo de uma vez. Quem nunca?

Turismo assim é o bicho. Substantivo, e não gíria.

Camelo “decorado” para o natal no Egito, arredores da Pirâmide. Opa, mas peralá: o Egito não é muçulmano? Ahá, te peguei, turista!

São burros, camelos, lhamas, golfinhos, vacas, macacos – etc, etc, etc. Incontáveis quanto os destinos que os oferecem como atração turística.

A questão é que muitos deles – especialmente em lugares mais humildes –  são cuidados (ou não) pelo proprietário, que em geral é uma pessoal simples e que vive do turismo praticado ali, sem maiores estruturas.

E aí, se a gente reparar bem – passada a euforia das fotos e dos “ooowwwns” – que muitos deles estão presos, parados, em pé, às vezes embaixo de sol e, invariavelmente, sem água. Ou comida.

E aí eu te pergunto: turismo assim é o bicho? (agora sim, a gíria).

Essa discussão passou a rondar minha cabeça por acaso, durante uma viagem de 18 dias ao Egito e Jordânia. Lá, os camelos e burricos são os animais de tração mais utilizados pelos habitantes para todos os fins (turísticos ou não).

Burricos, principalmente. Camelos são bem mais caros – e, reza a brincadeira, servem como moeda de troca na hora de propor um dote e casar. 

Não sei se há uma relação. Uma explicação religiosa ou social. Mas o que vi eram muitos, mas muitos maus-tratos aos bichinhos.

Coisa que, honestamente, eu não entendi a a lógica – mesmo com todo o aperto no coração. Afinal, mesmo que o burro seja considerado um “bem”, nada mais lógico que se cuide dele para que ele, digamos, dure bastante, não?

Pois é, mas não rolava. Nem com burrinhos, nem com os camelos – embora estes gozassem de um pouco mais de prestígio na escala social de (não) cuidados. E eu, mesmo vendo (várias) dessas coisas, não consegui tirar foto. Era triste. Revoltante. Doído.

Nesta foto, o gatão de Ray-ban disfarça bem com a pose. Mas dá para reparar os maus tratos pela pele maltratada do pescoço, a pelagem fina e rala e o “freio” no focinho.

Touradas, então, nem toco no assunto – senão fica muita polêmica, bicho, sangue e “olé” para pouco post. Até porque maus-tratos a animais é uma conversa que dá pano para a manga, e a gente segue abominando farras do boi e touradas, quando os maus-tratos acontecem, muito mais discretos, à nossa volta. De roupa bonitinha e posando para a foto, inclusive.

E aí fica outra pergunta: você repara nisso? E se repara, te incomoda?

Fila de burros em Santorini, Grécia, à disposição dos turistas para subir ou descer a ladeira. Todos decorados com pedras de olho grego e o azul absurdo do mar Egeu ao fundo. A gente vê tudo e acha lindo. Só não vê água, comida e sombra para eles.

Ah, mas nem precisa ir tão longe… Logo ali, nas dunas lindas do meu, do seu, do nosso Nordeste Brasileiro, tem vários jegues fazendo a alegria das fotos dos turistas, o dia todo, todo dia. E nem precisa lembrar o sol e o calor que faz por lá, né?

Jegue em Morro Branco, Ceará. A chupeta e a viseira podem até estar um charme, mas estamos aí num sol de 2 horas da tarde.

Mas tá: o que a gente, viajante, pode fazer por isso? Sentar e chorar, brigar com o dono ou levar o bicho para casa?

Não sei, de verdade: o problema é grande. Mas por isso, gostei muito de ter visto essa placa aqui na entrada de Petra, Jordânia.

 A Brooke, essa aí da foto, é uma ONG presente em países como Jordânia, Egito, Guatemala, Paquistão, Senegal e vários outros pelas bandas de lá. E, entre as várias propostas deles, as principais era a conscientização dos proprietários dos animais, para que os tratassem com cuidado, sem interferir ou impedir o trabalho dos animais no cotidiano daquele povoado – até porque, nestes lugares, a presença da força animal é quase que indispensável para a vida deles.

Mas, no caso dos destinos turísticos, a idéia funciona bem. E por que?

Porque ali, os “fiscais” somos nós!

Através de cartazes e folhetos, o turista/viajante  é orientado a reparar no animal antes da contratação do serviço – ou seja, você pode realizar o seu sonho de passear de camelo em pleno deserto, contando que assegure que o animal tem condições, saúde e força para fazê-lo.

E no caso de Petra, rola uma caminhada boa até o Tesouro, aquela fachada principal e famosa desde os tempos do Indiana Jones. O transporte em carruagem é uma mão na roda para idosos, crianças pequenas e pessoas com pouca resistência para grandes distâncias. Especialmente nos dias de calor senegalês que faz por lá no verão.

Ou seja, na hora de contratar o serviço, pede-se que o turista “confira” se o animal está em boas condições, facilmente reconhecíveis pelo estado da pelagem, tamanho (é preciso respeitar um peso mínimo para que animal transporte: duas pessoas no máximo na carruagem). E, convenhamos, até disposição.

Se o animal não estiver em condições, o turista desiste. E aí o proprietário aprende, na prática, que precisa manter seu animal sempre bem cuidado para continuar trabalhando.

É a lei da dor no bolso, sempre valiosa e educativa.

 

 O resultado? Pelo menos em Petra, eu achei o aspecto geral dos animais muito mais bem cuidado que os do Egito (na Área das Pirâmides, para ser mais exata e tentar comparar bananas com bananas e destinos turísticos com outros idem). Camelos felpudos, cavalos mais gordinhos, burrinhos tomando banho, na única vez  em que presenciei uma cena como essa em toda a viagem.

 Não dá para afirmar que a Brooks foi a salvadora da pátria e dos bichos – eu posso simplesmente ter tido sorte de ver isso. Mas a proposta é interessante e verdadeira – afinal, a gente como turista tem poder sim, concedido pela Divina Santa da Oferta e da Demanda, de recusar serviços turísticos que não respeitem a integridade dos animais e tentar, de pouquinho em pouquinho, mudar as coisas.

É um trabalho de formiguinha – outro bicho, inclusive – mas cuja atitude pode gerar resultados. Afinal, acredite: sua foto não vai ficar menos bonita sem o camelo bonitinho.

Mas, ó, eles vão agradecer muito se você ajudar, do seu jeito, a cuidar deles.

Comments

16 COMENTÁRIOS

  1. Muito bacana seu post, Clarissa! E uma preocupação constante que tenho também ao ver animais sendo “usados” para alguma atividade relacionada ao turismo. Idealmente, o mais correto seria deixar o animal no ambiente dele, e você como turista, o “visita” – tipo os safaris africanos. Mas no caso de animais “à serviço” do homem, a situação fica um pouco mais complicada, porque se espera um retorno do animal, quase um emprego dele mesmo (sem ele ter consciência disso, óbvio). Os golfinhos de apresentações, por exemplo, estão tão condicionados que provavelmente teriam dificuldades se retornados em seu ambiente natural. Há uma discussão ética enorme que esse tópico gera, mas o caminho das pedras vc comenta em seu post: cabe a nós, viajantes, nos atentarmos e cuidarmos para que não haja excessos com os animais.

  2. Sou filha de vets, tenho os dois pés atras quando se trata de animais. Adiei visitas a algumas cidades por aqui pelo fato de elas promoverem touradas na época pensada. Não consegui olhar pros jegues no nordeste sem querer chorar. Entendo perfeitamente seu posicionamento e reflexão, e concordo que os animais são importantes pra economia de diversos lugares, inclusive turisticamente, e concordo ainda mais que nós, enquanto turistas, devemos levar na bagagem a responsabilidade por preservar a cultura local e zelar pela saúde e bem estar dos animais que tanto prazer temos em ver nas nossas fotos 🙂

  3. Essa exploração dos animais me incomoda muito e por isso eu não costumo incentivá-la. Não pago para tirar fotos, não faço passeios em charretes, acho que não andaria em elefantes… Morro de dó! Foi bom você ter tocado no assunto, Clarissa! Talvez algumas pessoas passem a prestar mais atenção no assunto depois de lerem seu post.

  4. Camelo no Egito? Podiam me mandar internar se eu tivesse subido em um! Os bichinhos cheios de feridas, com cara de doentes, visivelmente maltratados e aqueles turistas sem coração ainda subindo em cima? E em Santorini? Estava nos meus planos subir a escadaria de jumento. Afinal, é o que todo mundo faz… Quando eu vi o estado deles, não consegui me imaginar botando os meus 70kg em cima do lombo dos pobres animais… Eles, inclusive, mas conseguiam aguentar com o peso do próprio corpo. E as corda do arreio (ou sei lá o nome daquilo) rasgando o ânus deles por baixo do rabo ainda vem à minha mente toda vez que ouço a palavra “Santorini”.

    • Gleiber, pois é! O estado dos camelos no Egito era bem sofrido, e me doía o coração de ver. Mas na Jordânia, em Petra, eu andei – e devo dizer que os camelos estavam bem gordinhos, peludos, com uma aparência saudável, forte, boa… Assim como os cavalos lá – o que penso ser um reflexo da ação da ONG de lá. Por isso que acho que vale a pena mencionar aqui, porque é um sinal de que a conscientização do dono do animal e a do turista devem andar juntas, mas é prova de que turismo com animais dá para ser feito com responsabilidade sim!

  5. Estou adorando ler o seu blog ! Adorooo viagens, e ter a oportunidade de conhecer vários lugares sem sair de casa (infelizmente..kk) é ótimo! Parabéns !

  6. Retornei do Egito há 3 dias, uma viagem sonhada há muito tempo, P orém a beleza das paisagens de templos, pirâmides, etc..foi suplantada pela tristeza de ver tantos animais sofrendo naquele local..Cavalos magros, famintos, machucados, submetidos a esforços extremos durante todo o dia, debaixo daquele sol. Não há um local de “descanso”, com sombra, água ou alimentos. Não é possível que as pessoas/turistas de todas as partes do mundo não enxerguem e não se compadeçam com essa situação! Precisamos nos unir e ajudá-los, e uma das atitudes que podemos ter é esta que você sugeriu, de nos negarmos a “contratar” os serviços animais! afinal, os animais não possuem voz, polícia ou leis que os defendam! só têm a nós!

    • Oi, Cristiane!!! É dolorido, não é? Eu ficava com o coração doendo ao ver o estado dos burricos, muitos com feridas abertas, total descaso… Concordo com você, isso me fez voltar com o coração bem apertado, e com uma sensação meio dividida entre ter gostado do país ou não.
      Achei fantástica essa ONG que fazia esse trabalho (essa que mencionei na Jordânia) e foi bem óbvio notar a diferença entre os animais de lá, e os do resto do Egito. Mas acho que isso tudo veio de um trabalho também de educação que a ONG tem feito por lá – e educação é mesmo o que pode fazer a diferença.

      Sim, eu tenho me recusado a pagar por estes serviços quando vejo o animal maltratado. Tenho mudado bastante meu comportamento nas viagens por causa disso, procurando me tornar mais consciente. E é bom ver, por mensagens como a sua, que eu não estou sozinha pensando assim!

      Vamos ajudá-los!!

  7. Olá Cristiane!
    Adorei o seu post. Tomo a liberdade de deixar a minha experiência pessoal. Andei de camelo no deserto do Sahara, mal desci do bicho desmaiei, apanhei uma insolação. Foi o karma, justiça divina, sei lá… Em Marraquexe, o meu namorado queria passear de charrete. Vi que o cavalo estava a ser maltratado pelo proprietário e recusei terminantemente. Apanhei nova insolação ao regressar a pé ao hotel, mas foi a melhor decisão que tomei. Em breve vou a Santorini, mas recuso-me a andar de burro. Atualmente, em Portugal, país onde vivo, há uma lei que confere proteção aos animais e os maus tratos a animais de companhia são crime. Contudo, até há bem pouco tempo, as touradas eram eventos que faziam parte da nossa cultura. São tantos os casos de maus tratos por esse mundo fora, que é impossível ficar indiferente. Apoio a 100% a iniciativa desta ONG. Bem hajam! Nós turistas podemos fazer a diferença.

    • Oi, Mônica, tudo bem?
      Só um detalhe: meu nome é Clarissa, não Cristiane! 🙂
      E concordo em tudo o que você disse! Passeios de burro, de camelo, de elefantes… a maioria envolve um sofrimento animal tão grande por trás! Apoio também totalmente uma ONG como essa, e acho que em lugares em que esta ONG não tenha o mesmo poder de atuação, cabe é a nós dizermos não!
      Obrigada pela visita e comentário!

  8. Ola, Clarissa!

    Gostei DEMAIS desse seu post. Em menos de duas semanas eu chego no Egito, e em maio estarei na Grecia (passando por Santorini), e estava pensando exatamente na questao dos bichinhos usados no turismo local. Ja tinha lido, inclusive, alguns comentarios em outros blogs a respeito dos burrinhos que sobem do porto de Thira, e confesso que ja fiquei revoltada. Como eu me conheco, ja sei que vou dar piti caso veja algum maltrato contra os bichinhos nesses paises. So realmente espero que nao haja necessidade..

    • Catarina, é uma visão triste mesmo, sabe? Me deixou muito incomodada.
      Infelizmente, acho que é uma questão de cultura e educação, e morri de vontade de ter uns pitis por lá, o que certamente (e infelizmente) não resolveria o problema). Tenho pesquisado sobre ONGS como essa que mencionei no texto, e outras que atuam na Grécia, Turquia e países com animais nessas condições, e confesso que uma forma de ajudar é promover o trabalho dessas ONGs, que também atuam como educadoras nesas localidades! Como sempre, a solução é educação, e isso vale no Brasil também!)

      Passe sempre por aqui – sua visita e comentários são bem vindos!

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