Londres é cheia das histórias de terror: tem “Drácula” em que parte da história do livro se passa aqui, tem Harry Potter (que é de criança, vá lá, mas partes da história também são bem sombrias)… Isso sem falar das próprias histórias dos reis ingleses, cheias de traição, execução, forca, guerra… Na Torre de Londres, por exemplo, há a “Bloody Tower”, ou Torre Sangrenta, nome bastante sugestivo e nada amigável para os condenados que ficavam presos por lá. E na ponte que levava ao “Portão dos Traidores”, era comum ver, na época medieval, cabeças decapitadas dos criminosos penduradas em estacas de ferro como um aviso para quem pensasse em sair da linha.

Para quem curte Game of Thrones, fica a dica de pegar um livro de história da Inglaterra: Westeros não chega perto do que era a cidade de Londres nos seus primeiros anos.

Mas de todas essas histórias de sangue, a mais popular entre os turistas é a do Jack, O Estripador – ou “Jack, the Ripper”, um tour que acontece à noite e é vendido aos quatro cantos de Londres. Ele matou 5 mulheres, todas prostitutas, de uma forma extremamente violenta – elas eram evisceradas – e precisa. E ganhou de serial killer mais famoso por nunca ter sido descoberto.

Jack The Ripper 3

Bem, mais ou menos: porque descobri um dos tours que é organizado por estudiosos da época que afirmam (com provas) de que eles sabem a identidade do assassino. 😮

Qual tour vale a pena?

Na primeira vez que eu vim a Londres, como turista, eu fiz o tour que todo mundo faz – onde o ponto de encontro é na saída da estação de Tower Hill, às 19 horas, e vai percorrendo à pé os locais do crime.

Minha opinião: pelo preço que foi (9 libras na época) achei que foi justo. O tour levava em média uma hora e meia, e a gente seguia o guia, que fazia uma voz cavernosa e contava curiosidades dos crimes, para tentar dar um ar de mal assombrado.

1° tour que eu fiz, o turistão: foi uma experiência bacana, mas era muita gente no grupo e eu tinha que disputar na base do cotovelo um espaço perto do guia para conseguir ouvir o que ele dizia.
1° tour que eu fiz, o turistão: foi uma experiência bacana, mas era muita gente no grupo e eu tinha que disputar na base do cotovelo um espaço perto do guia para conseguir ouvir o que ele dizia.

O problema é que:

  • Tem muita gente (meu grupo tinha mais de 20 pessoas);
  • Você tem que ficar correndo atrás do guia para ficar bem perto e conseguir escutar o que ele está falando na paz – como tem muita gente, se você ficar na galera do fundão quase não dá para ouvir nada; ❗
  • Se for no verão, os dias são mais claros e as ruas ficam cheias de gente nos pubs. É divertido, mas como nessa região as ruas são estreitas, é meio complicado de passar, e mais barulhento ainda na hora de ouvir a história;
  • Em geral o tour é todo em inglês, e mesmo com o sotaque deles sendo super charmoso, se você não estiver afiado no idioma pode ter uma certa dificuldade em entender, porque os guias fazem vozes e trejeitos de quem conta uma história de terror. Eu considero meu inglês bem bonzinho, e não aproveitei muito na época do que ele disse.
  • É difícil tirar fotos com tantas cabeças na frente.

Mas tá. Depois de um bom tempo, quando eu já estava morando por aqui, eu estava procurando no Meetup (um site bacana de atividades diferentes promovidas por grupos com interesses comuns) um tour a pé para fotografar, e encontrei “Uma caminhada pela história de Jack, O estripador, para fotógrafos”.

Valor: 14 libras. Achei que valia a pena. Fui.

E a experiência foi bem melhor! 🙂 Especialmente porque:

  • O tour acontece nos domingos de manhã cedo, o que é ótimo, porque tem menos gente na rua e dá para fotografar melhor.
  • Como é uma caminhada para fotógrafos, a guia dá todo o tempo do mundo para você sair fotografando, ouvindo e curtindo o passeio (e se você não tem câmeras poderosas, sem problemas – dá para fazer muita coisa com o seu celular).
  • Os grupos são pequenos – tinha seis pessoas no meu, contando comigo – e a guia falava em um inglês bem claro e calmo, você não precisa ficar se acotovelando para ouvir.
  • Aliás, Jude, a guia, é ótima. É uma verdadeira contadora de histórias, e organiza o tour seguindo a ordem cronológica em que a história aconteceu, o que ajuda a gente a imaginar como era a cidade daquela época (até porque muitas construções ainda existem);
  • Para quem gosta de fotografia é perfeito: ela dá dicas de como posicionar a câmera, explorar os efeitos de abertura e velocidade, dá idéias para fotos preto e branco para recriar o clima “sombrio” da época… O máximo.
  • Para fechar, o tour acaba do lado do mercado de Spitafields Market, com a feirinha rolando solta e vários restaurantes bacanas.Ou seja, você já emenda o resto do seu passeio dali mesmo! 🙂

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Foi nítida a diferença entre esse tour e o tour “caça turista”, e apenas por cinco libras de diferença. Recomendo e acho que vale a pena – até porque tanto a história como o jeito que a guia apresenta os fatos históricos não deixa nada a dever para as melhores histórias de crime e suspense!

 

A História

A região de East End, no extremo leste de Londres, onde ficam os atuais bairros de Whitechapel, Aldgate e Spitafields não era nada agradável lá pelos anos de 1880.

Londres havia “inchado” de tamanho com a chegada de vários irlandeses no século XIX e especialmente de vários refugiados judeus que fugiam das perseguições da Rússia czarista. A maioria veio a se estabelecer nessa parte da cidade, a mais pobre, criando verdadeiros bolsões de miséria ao redor da capital inglesa.

Foto tirada durante o tour - e achei essa street art fantástica!
Foto tirada durante o tour – e achei essa street art fantástica!

Aí, pense num cenário miserável mesmo: desempregados e famintos pelas ruas, doenças e fome. Com essas condições, os bordéis se multiplicaram, já que a prostituição era a única forma de muitas mulheres sobreviverem. Doenças como sífilis era muito comuns também.

Hoje, claro, a situação mudou bastante – mas ainda assim, de acordo com alguns ingleses, a região ainda tem áreas consideradas  perigosas.

Crimes, nessa época, eram comuns, especialmente contra às mulheres – mas foi no começo de abril de 1888, uma segunda feira de feriado na Inglaterra, que a coisa começou a ficar feia…

Como havia muitos miseráveis na região que não podiam pagar aluguéis, a forma comum de hospedagem eram as "dosshouses", contruções que serviam como um hotel de serviços mínimos - a maioria das pessoas só tinha dinheiro para pagar por uma noite, e tinham direito a apenas uma cama. As entradas eram divididas por homens e mulheres, e estas muitas vezes tinham que recorrer à prostituição todos os dias para poder pagar pela hospedagem de cada noite.
Como havia muitos miseráveis na região que não podiam pagar aluguéis, a forma comum de hospedagem eram as “dosshouses”, contruções que serviam como um hotel de serviços mínimos – a maioria das pessoas só tinha dinheiro para pagar por uma noite, e tinham direito a apenas uma cama. As entradas eram divididas por homens e mulheres, e estas muitas vezes tinham que recorrer à prostituição todos os dias para poder pagar pela hospedagem de cada noite.

3 de abril de 1888: O primeiro corpo foi descoberto pertinho da esquina da rua Brick Lane com a Wentworth.  Emma Smith tinha 45 anos, era prostituta e conhecida por ter sérios problemas com a bebida. Foi atingida por um golpe de facão na área genital entre as 3 e 4 da manhã, e chegou a ir ao hospital, mas morreu poucos dias depois. Até aí, não se sabia muito sobre o assassino.

8 de agosto de 1888: Todo mundo tinha quase esquecido o primeiro crime quando, alguns meses depois no auge do verão inglês, aparece um segundo corpo, morto de forma muito parecida com o primeiro.

O corpo da segunda vítima apareceu na Gunthorpe Street -essa é a entrada que separa o pub onde a vítima estava e o o local onde o corpo foi encontrado, ao final da rua.
O corpo da segunda vítima apareceu na Gunthorpe Street -essa é a entrada que separa o pub onde a vítima estava e o o local onde o corpo foi encontrado, ao final da rua.

Martha Turner, também prostituta e mãe de 5 crianças, estava bebendo com dois guardas não identificados, e horas depois foi encontrada morta, com 39 ferimentos de faca e na região genital, a poucos metros do pub onde estava e a um quarteirão de distância de onde o primeiro corpo foi encontrado.

Esse trecho da rua, em especial, não mudou muito da época do crime para cá. O corpo foi encontrado na calçada do lado esquerdo.
Esse trecho da rua, em especial, não mudou muito da época do crime para cá. O corpo foi encontrado na calçada do lado esquerdo.

 As autoridades começaram a investigar se os crimes tinham relação um com o outro.

Inclusive, a rua onde essa segunda vítima foi encontrada é onde começa o ponto de partida do tour – e onde, hoje, há vários cartazes reproduzindo as notícias da época.

31 de agosto: Menos de um mês depois, aparece a terceira vítima: o corpo de uma mulher é encontrado na madrugada com dois golpe de faca na garganta, da esquerda para a direita e mais golpe horroroso no abdômen, do lado oposto ao Hospital de Londres (em tempo: a área onde ela foi encontrada até hoje é meio deserta e esquisita). Mary Ann Nichols, a vítima, tinha sido vista ainda viva na noite anterior, quando saía para buscar dinheiro para o aluguel.

Aí começa a suspeita de que se tratava de um serial killer, e a Scotland Yard destaca três investigadores para desvendar o crime. Oficialmente, essa seria a primeira vítima atribuída ao tal do Jack (que ainda não tinha esse nome).

8 de setembro: Uma semana depois dos investigadores pegarem o caso, aparece mais trabalho para eles.  Annie Chapman saiu de casa às 2 da manhã – para “trabalhar para pagar a hospedagem daquela noite – e é vista conversando com um homem “aparentemente estrangeiro” com um chapéu de duas pontas. Ela o havia encontrado no pub “Ten Bells”, que existe e funciona até hoje em frente ao atual Spitafields Market.

Por ter sido o lugar onde duas das vítimas de Jack frequntarem, o pub chegou a pegar carona na fama e mudou o nome para "The Jack The Ripper", mas foi obrigado a mudar para o nome original depois de uma enorme pressão pública, já que não é correto homenagear dessa forma um assassino de mulheres.
Por ter sido o lugar onde duas das vítimas de Jack frequntarem, o pub chegou a pegar carona na fama e mudou o nome para “The Jack The Ripper”, mas foi obrigado a mudar para o nome original depois de uma enorme pressão pública, já que não é correto homenagear dessa forma um assassino de mulheres.

4 horas depois o corpo dela é encontrado no quintal de uma casa em Hanbury street, próximo ao pub. O abdômen tinha sido totalmente cortado e parte do útero foi removido.

As pistas vinham de diferentes lugares: Annie tinha sido vista conversando com um homem de aparência estrangeira – mas essa região não estava cheia de imigrantes que eram, também, os principais clientes das prostitutas?

Com o medo, começaram os motins na região. Uma multidão atacou uma estação de polícia, acreditando que o criminoso estava preso ali. Para piorar, o corpo foi encontrado próximo à Princelet Street, onde moravam a maioria dos judeus da região.

Salvo pela pequena televisão esquecida na calçada, do poste elétrico e da placa, essa foto bem que poderia ser da época de Jack, já que as construções ainda são parecidas com que havia na época.
Salvo pela pequena televisão esquecida na calçada, do poste elétrico e da placa, essa foto bem que poderia ser da época de Jack, já que as construções ainda são parecidas com que havia na época.

Com a descrição do suspeito como um homem “estrangeiro” e o fato de que nenhuma das prostitutas mortas eram judias, começou-se a espalhar o boato de que as mortes eram causadas por rituais judaicos. E com o medo generalizado e a falta de informações, começaram a acontecer uma série de manifestações antissemitas.

Ainda na Princelet street, é possível ver esses adornos presos nas portas.
Ainda na Princelet street, é possível ver esses adornos presos nas portas.

O exame do corpo, porém, deu algumas dicas: ambos os cortes foram muito precisos e dados com um golpe só, o que sugeriria o uso de uma lâmina longa, em torno de 15 a 20 centímetros. Ou seja, o criminoso provavelmente teria bons conhecimentos de anatomia. Talvez um médico? Um cirurgião?

Ou um açougueiro. A polícia chegou a prender o dono do açougue em frente onde o corpo da vítima foi encontrada – as prostitutas da região o acusavam de gritar ofensas e ameaças a elas – mas ele foi solto em seguida provando um álibi.

E a polícia voltou ao ponto zero.

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30 de setembro: Aqui a coisa começa a ficar tensa. 😮

00:45 -> Um senhor judeu, chamado Israel, está andando na Berners Street (hoje chamada de Henriques Street) quando vê de longe um casal discutindo. O homem – de bigode – empurra a mulher no chão após ela dizer “não”.

01:00 -> Quinze minutos depois, outro homem chega de carruagem no mesmo lugar, e encontra ali o corpo de Elizabeth Stride, prostituta, com um único corte na garganta.

Na mesma hora, a 15 minutos de caminhada dali, Catherine Eddowes é solta pela polícia após ter sido presa bebendo, e vai para a igreja de St. Botolph, um ponto comum para “conseguir clientes”.

01:15 -> Um homem é visto lavando suas mãos em uma viela – chamada hoje de St. James Passage – a poucos metros da igreja de St. Botolph.

01:34 -> Duas testemunhas (uma delas seria identificada, depois, como primo de primeiro grau de um dos suspeitos) veem Catherine Eddowes conversando com um homem na entrada da St. James Passage.

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St. James Passage, hoje cheia de obras, mas ainda estreita como era naquela época. Está vendo esse casal? Essa era a distância em que as testemunhas avistaram Catherine Eddowes conversando com um homem, possivelmente o assassino.

01:44 ->  Outro homem encontra Catherine Eddowes morta, terrivelmente mutilada, na Mitre Square, ao final da St. James Passage.

Essa é a Mitre Street, tal como está hoje. Esqueça os arranha-céus modernos ao redor e imagine a praça há mais de um século atrás: o corpo de Catherine Eddowes foi encontrado onde hoje está esse banco.
Essa é a Mitre Street, tal como está hoje. Esqueça os arranha-céus modernos ao redor e imagine a praça há mais de um século atrás: o corpo de Catherine Eddowes foi encontrado onde hoje está esse banco.

02:55 -> O avental ensanguentado de Catherine Eddowes é encontrado em um muro na Goulston Street onde uma pichação dizia “Os Juwes são os homens que não levaram a culpa por nada”.

Aí, minha gente, a cidade toda ficou doida.

Esse dia foi considerado o “Evento Duplo”, em que as duas vítimas foram mortas no mesmo dia, com apenas um espaço de poucos minutos entre elas – como o corpo da primeira vítima do dia só tinha um golpe na garganta, algo diferente das outras – a polícia acreditava que o criminoso foi “interrompido”, talvez pelo som da carruagem que chegava, e fugiu da cena do crime. Já com a segunda vítima, porém, ele “teve tempo” para fazer um estrago terrível. Seu rosto foi totalmente mutilado e o rim e o útero também sumiram. Um horror.

Cartas chegavam às principais redações sob o nome de “Jack, O Estripador”. A maioria das cartas eram falsas, algumas até escritas por jornalistas que se aproveitavam do “afã” da história. Até que uma das cartas chegou junto com uma pequena caixa com metade de um rim humano preservado em álcool – o rim da última vítima tinha sido retirado – e uma mensagem dizendo que o autor havia “fritado e comido” a metade faltante. Na falta de exames de DNA da época, só ficou a palavra do legista, que disse que o órgão era “muito parecido” com o órgão que deveria estar ser de fato da vítima, mas sem nenhuma conclusão final.

Eu achei engraçado as  "loja oficiais" que existem hoje do Jack Estripador. É oficial porque, tem autorização especial do Jack? A verdade é que ainda hoje muita gente ganha dinheiro com ele.
Eu achei engraçado as “loja oficiais” que existem hoje do Jack Estripador. É oficial porque, tem autorização especial do Jack? A verdade é que ainda hoje muita gente ganha dinheiro com ele.

A polícia estava que nem barata tonta, entrevistando milhares de pessoas, investigando outras tantas e, também, fazendo algumas lambanças. A pichação, aliás, acredita-se que era a única pista do criminoso, mas o chefe da investigação ordenou que a pichação fosse imediatamente apagada antes do amanhecer, para evitar que a palavra “juwes” fosse intepretada como “Jews”, judeus, e que isso desencadeasse um verdadeiro confronto antissemita na região (já tinha acontecido alguns incidentes violentos).

O problema é que a pintura foi apagada antes de sequer ser tirada uma fotografia. Com isso, a polícia destruía uma prova importante, e até hoje não se sabe se o “Juwes” queria dizer judeus mesmo, ou se teria outro significado.

9 de novembro: um pouco mais de um mês depois, acontecia o pior crime de todos. Mary Helly, de 25 anos, morava em um quarto do Millers Court, um sobrado barra-pesadíssima na Dorset Street. Aliás, a Dorset street de hoje nem lembra a rua de séculos atrás, cheias de cortiços, prostitutas, pessoas miseráveis e muitos crimes. Ela havia saído de casa às 11 da noite e retornado às 2 da manhã acompanhada de um homem estrangeiro bem-vestido. Foi a última vez que ela foi vista com vida – ela só seria encontrada na manhã do dia seguinte, totalmente mutilada, com seus órgãos espalhados pelo quarto e o coração desaparecido.

Foi o último crime atribuído a Jack, e o mais violento. Seguiram-se outros parecidos, mas que acredita-se que foram praticados por imitadores, já que a “lenda” já tinha se espalhado.

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Mas quem matou?

Você pode procurar no Google, nos livros, e até no filme do Johnny Depp para saber quem eram os suspeitos: teve o tal do açougueiro que era famosos por tratar mal as prostitutas (mas que tinha álibi); um barbeiro polonês chamado Aaron, que tinha alguns impulsos violentos e teve passagens por um sanatório, mas não havia provas de que ele tinha matado alguém; havia também um famoso cirurgião, médico da família real, que chegou ser considerado suspeito, mas ele não tinha o perfil ágil de um assassino que pudesse cometer os crimes tão rapidamente; e tinha um homem também que morava na região, havia matado 3 amantes envenenadas, e costumava bater na mulher – o perfil, porém não batia com os crimes (afinal, matar com veneno é uma coisa, e matar e estripar com faca é bem diferente). Sobrou até para o príncipe filho da Rainha Vitória e herdeiro do trono, porque havia rumores que ele se aventurava com prostitutas – a história foi por água abaixo porque o príncipe não estava em Londres na época dos crimes.

Isso tudo você vê nos livros e na Wikipedia. Mas no tour da Jude tem informação nova. 🙂

Primeiro, porque ela é judia, apaixonada por história e vem de uma família que mora há anos naquela região. Ela disse que é apaixonada pela história do East End (o que que a gente percebe, pela forma que ela conta) e que resolver fazer sua própria investigação histórica, especialmente pesquisando documentos históricos e buscando acervos dentro da comunidade judaica na região.

A herança judaica na região do East End está presente até hoje nas construções - e o bom de andar com uma guia é que ela ajuda a gente a perceber a história que está nos detalhes.
A herança judaica na região do East End está presente até hoje nas construções – e o bom de andar com uma guia é que ela ajuda a gente a perceber a história que está nos detalhes.

Daí, você vai dizer, pode ser que seja tudo mentira – ou marketing, o que no fim das contas é parecido. Mas no fim do tour ela conta – com as evidências que ela achou – uma nova teoria, bastante plausível até, de quem é o verdadeiro Jack, O Estripador.

E já que a gente está viajando mesmo, e seja como for, o tal do Jack já morreu faz tempo, nada nos impede de viajar em novas teorias também, né?

Pois então: segundo ela, o verdadeiro Jack se chamava Jacob Levy, judeu, nascido no bairro de Aldgate. Ele teria 32 anos na época dos crimes. Algumas pistas seriam:

  • Filho de açougueiro, ele desde cedo se acostumou a ver e a lidar com o corte de animais e a manejar um facão.
  • Seu açougue ficava no número 36 da Middlesex Street – local central e bastante próximo de onde os crimes foram cometidos;
Passado e presente na rua onde morava o provável Jack verdadeiro.
Passado e presente na rua onde morava o provável Jack verdadeiro. Dá para ver, pelas referências das construções de hoje, que não era muito distante de onde os crimes foram cometidos.
  • Seu irmão, Isaac, morava na Goulstan Street, muito próximo de onde o avental ensanguentado de uma das vítimas foi encontrado, junto com a pichação;
  • Jacob Levy poderia se passar por um estrangeiro, dado o seu tipo físico. Ele também tinha a mesma estatura que testemunhas afirmavam ter visto, e usava bigode.
  • Documentos mostram que ele era um bom funcionário, mas algo mudou no seu comportamento de repente, e em 1886 ele permaneceu preso por um ano sob a acusação de que teria roubado um pedaço de carne do seu empregador, também judeu. Porém, era muito incomum que judeus levassem outros judeus para a corte por crimes naquela época – então acredita-se que esse foi um artifício usado para que ele passasse um ano preso em um asilo para doentes mentais.
  • Uma das testemunhas confirmava que tinha visto a vítima Catherine Eddowes acompanhada de um homem poucos minutos antes da sua morte. Essa testemunha, porém, era o primo em primeiro grau de Jacob, e afirmou não ter identificado o homem que a acompanhava. A teoria sugere que ele tenha de fato avistado o primo, mas optou por não informar por medo de retaliações contra a família,
Provável local onde Jacob teria sido visto conversando com a quarta vítima poucos minutos antes dela ser morta.
Provável local onde Jacob teria sido visto conversando com a quarta vítima poucos minutos antes dela ser morta.
  • Um jornal publicado 10 dias depois da morte de Catherine Eddowes afirma que “Mr Levy” – no caso, esse mesmo primo de Jacob, que se chamava Joseph Levy – “se recusa a dar mais informações sobre a identidade do homem que viu acompanhando a vítima, o que sugere que ele sabe de alguma coisa, mas teme ser chamado para depor”.
  •  Acredita-se que Jacob sofresse de sérios problemas mentais. Sua esposa dizia que ele “afirmava que tinha impulsos de cometer violência, sem explicação; e que ele ouvia vozes”. Além disso, ele não dormia à noite e ficava vagando pela rua por horas.
  • Por fim, uma das testemunhas disse ter visto um homem de aparência estrangeira junto com a última vítima, e que tinha a impressão de ter visto o mesmo homem algum tempo depois na mesma rua onde morava Jacob Levy.

A teoria, segundo Jude, é que a própria família de Jacob teria prendido-o dentro de casa após o último e pior crime de todos, quando a cidade já estava em polvorosa, e assim tentado abafar o caso – o que explicaria que, subitamente, os crimes violentos parassem de repente. Jacob já dava sinais avançados de estar doente, e a família acreditava que já havia uma predisposição hereditária para doenças mentais ali (o irmão mais velho já havia se matado cortando a garganta). Além disso, o ânimos antissemitas estavam muito alvoroçados e o preconceito contra estrangeiros, muito forte. Se viesse à tona que um judeu tinha cometido os crimes, ninguém ia parar para pensar que ele estava louco – e a população pobre poderia fazer retaliações violentas contra a comunidade judaica do East End.

Pois bem: Jacob foi confinado pela família, a poeira baixou, e um ano e meio depois ele foi internado novamente em um sanatório, onde morreria no ano seguinte por paralisia geral – provavelmente causada por uma sífilis não tratada, o que pode indicar uma relação com as prostitutas de Aldgate.

Agora confesse: não é todo passeio turístico que faz você sair cheio de teorias da conspiração na cabeça, né? 🙂

East End hoje: um festival de street art ao ar livre - mais um bônus do tour da Jude! :)
East End hoje: um festival de street art ao ar livre – mais um bônus do tour da Jude! 🙂

Informações sobre o tour

Os tours tradicionais do Jack de Ripper – leia-se: pata turistas – saem todos os dias à noite, por volta das 19 horas . Nem precisa agendar: é só chegar no ponto de encontro, em geral na saída da estação da Tower Hill, que você já vai ver um monte de guias anunciando com cartazes. É preciso pagar na hora – costuma ser 9 libras, mas já vi tours de 15, 20 libras também) – e em dinheiro. Dá mais ou menos uma hora de passeio.

Já o tour fotográfico não é sempre que acontece – recomendo se inscrever no Meet Up e seguir o Photography Meetups, organizado pela Jude. O tour do Jack em geral acontece aos domingos (é um ao mês), de manhã cedo, e é preciso se inscrever com antecedência, pelo menos até um dia antes (e se você for desmarcar, é gentil avisar ela também).  O valor é 12 libras, a serem pagas na hora, e que valem cada centavo: é uma aula de viagem no tempo e na História! 🙂

O formato do tour, em geral, é assim: ele acontece à noite, em torno das 19 horas, no ponto de encontro na saída da Tower Hill, e a partir dali o guia vai levando o grupo (geralmente grande – quando eu fui tinha umas 20 pessoas) pelas ruas, contando a história no ponto em que as vítimas foram encontradas.

 

Essa jornalista e blogueira fez o tour da Jude, pagou, amou e tirou todas as fotos desse post – não foi post patrocinado, nem convite – é recomendação mesmo! 🙂

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