Alain de Bottom, escritor famoso por aplicar filosofia a assuntos do cotidiano, escreveu em seu livro “A arte de Viajar” que viagens de trem são as melhores opções para abrir a mente e oxigenar o fluxo de idéias. Isso acontece porque a passagem ininterrupta da paisagem pelos olhos através da janela do trem seria um remédio certeiro para ajudar a fazer fluir aquelas reflexões introspectivas que por vezes ficam bloqueadas na nossa cabeça.

Concordo. E, acrescento, que se o correr das paisagens no ritmo constante de uma janela de trem é naturalmente um convite à reflexão, a imagem de uma estrada se abrindo a sua frente quando ao volante de um carro é simplesmente libertadora.

Como uma assumida apaixonada por caminhos, acredito que, nas viagens, as jornadas podem ser mais ricas do que os destinos. Principalmente em razão das mil histórias que as estradas carregam, pela multiplicidade de características de cada parada, sítio, cidadezinha por onde passa e que dá esse caráter multicolorido à cultura da região e – por que não? – às nossas lembranças de viagem.

Não temos no Brasil uma estrada emblemática como a Rota 66, única, que corta o país e que virou um símbolo de liberdade. Mas temos, sim, nossas estradas, pequenas em comparação à distância, mas igualmente ricas em história, abertas paulatinamente a custo de muitos anos, suor, cavalos e objetivos, e que ainda têm hoje as marcas de vida no passado que se construiu ao longo delas, quando eram, essencialmente, a artéria principal da região.

Viajar de carro por elas é praticamente um tour por um museu a céu aberto. Selecionamos três roteiros deles para fazer uma pequena série, semanal, sobre cada um, com dicas do que conhecer e um pouco da história de cada lugar. E para abrir a série com chave de ouro, começamos com a estrada criada para levar o próprio: A Estrada Real, criada para levar o minério extraído em Ouro Preto para os portos do Rio de Janeiro.

Nessas horas, o livro de história é tão ou mais útil que o guia de estradas. Mergulhe no passado e aproveite a viagem.

 

 

Estrada Real – Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro

 

Idealizada como um meio de escoamento do ouro extraído das cidades de Ouro Preto (antiga Villa Rica) e posteriormente Diamantina (antiga Arraial do Tejuco) para os portos do Rio de Janeiro, a Estrada Real teve um surgimento e crescimento natural, derivado do fluxo de veículos que chegavam e saíam e dos pontos de parada ao longo do trajeto.

O primeiro momento, o chamado Caminho Velho, saía de Ouro Preto e percorria um longo caminho, passando por Tiradentes, São Lourenço, pelas cidades paulistas de Cunha e Cachoeira Paulista até chegar ao porto de Paraty.

O segundo momento – o Caminho Novo – surgido através da necessidade de se escoar o ouro de forma mais rápida e segura, passava por Juiz de Fora, Itaipava e Petrópolis, até chegar ao Porto do Rio de Janeiro.

Há ainda os alternativos Caminhos dos Diamantes e do Sabarabuçu, cheios de história tão interessantes quanto as paisagens. O primeiro foi criado quando da descoberta de diamantes, e ligava a cidade de Diamantina a Ouro Preto, que passou a centralizar o transporte de todos os tesouros. O segundo tem apenas 160 quilômetros de extensão e inclui muitos cursos d’água e montanhas, principalmente a Serra da Piedade. Esta possuía montanhas que reluziam ao sol, e acreditava-se que tal brilho era resultado do ouro das montanhas – mas que é, na verdade, minério de ferro. Por isso construiu-se esta via alternativa.

Por isso conhecer a Estrada Real se torna uma tarefa mais versátil, quando não propõe apenas um caminho especifico para se conhecer um pouco da história da época. É possível organizar viagens mais curtas e conhecer apenas trechos entre uma cidade e outra.

Cada trecho tem uma peculiaridade, mas é possível em geral ver sítios de época, construções com arquiteturas antigas e cidades-fantasmas pontilhadas ao longo de qualquer um dos caminhos escolhidos. Além, é claro, do forte apelo da paisagem, que faz dos lugares ao longo da Estrada Real um dos melhores pontos da região para esportes de aventura. Devido ao local por onde passa, o Caminho do Sabarabuçu contempla trechos de natureza exuberante, trilhas com muito verde e é ótimo para a prática de trekking, cavalgadas e passeios de bicicleta. O mesmo acontece com o Caminho dos Diamantes, uma vez que passa por vários parques florestais. A famosa Serra dos Órgãos, que abriga a travessia considerada uma das mais bonitas do Brasil, em Petrópolis, e Santo Aleixo, com diversos trechos pequenos de estrada de barro que fazem a delícia dos adeptos de montain bike, são exemplos de passeios e atividades que podem ser organizadas facilmente, o que torna a viagem por conta própria muito mais gostosa.

E falando em gostoso, não há muito mais o que dizer sobre a culinária da região que não seja de conhecimento geral. Seja a culinária mineira ou serrana, é possível se fartar a cada parada da estrada com doces caseiros, compotas, feijão mineiro, carnes, peixes… Restaurantes que se harmonizam com a paisagem clássica das cidades, comida simples e deliciosa, muitas feitas com aqueles segredidos da vovó passados de gerações em gerações. Nunca a expressão “panela velha é que faz comida boa” adquiriu contornos tão gastronomicamente verdadeiros numa viagem.

Uma dica é visitar o site Estrada Real. Ali é possível baixar roteiros planilhados de bicicleta, montar pacotes, ver a altimetria da região, além de viajar nas fotos. É por a bicicleta no carro, o livro de história no banco do carona e conferir.

 

Comments

1 COMENTÁRIO

  1. Deu até vontade de pegar um bom livro de história, um carro e cair na estrada. O nosso país tem lugares maravilhosos que não podem deixar de ser visitados.

    O melhor da Estrada Real parece ser a diversidade. Tem programas para todos os gostos. Para aqueles que querem simplesmente curtir uma boa paisagem e comida. Para os que desejam reviver uma outra época, observar de perto e estar em lugares em que estiveram aqueles que ajudaram a escrever a nossa história. E para quem procura um pouco mais de adrenalina.

    Pessoalmente, a ideia de juntar as três coisas me atrai bastante. Com certeza, ficou a dica.

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