Um dos detalhes do Templo de Philae

Pesquisando no meu guia sobre o Egito, eu encontrei uma lista do tipo “25 coisas que você tem que conhecer quando for ao Egito” – e não havia nenhuma menção a um tal de templo de Philae.

Beleza, na época eu nem sabia quem era o dito cujo, até que vi uma foto (dessas escondidinhas que ilustram o miolo do guia, sem nenhum destaque especial) de uma construção igual a esta aqui embaixo:

Um dos detalhes do Templo de Philae. Sem saber, foi esta foto que me guiou por um Egito feminino que eu nem conhecia – e que vale a pena desvendar.

E, sei lá porque, decidi que queria ir lá, conhecer e tirar uma foto igual.

Consegui. Seria o poder do “Segredo”? Ou “Maktub” – “estava escrito”? 

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Descubro, pesquisando, que este é uma parte do Templo de Philae, dedicado à Deusa Ísis, e que ficava em Aswan, na cidadezinha ao sul do Egito, às margens do Nilo. Costuma ser incluído nos tours mais como um passeio secundário, uma vez que a maioria das rotas turísticas do Egito começam em Aswan, só que focadas nos cruzeiros pelo Nilo que partem dali, ou no grandioso templo de Abu Simbel, construído pelo todo-poderoso Ramsés II, o faraó mais bambambã do Egito Antigo.

Ou seja, me deu mais vontade de conhecer ainda. Nem que seja para prestigiar o único templo erguido em homenagem a uma deusa que representava a feminilidade em meio a um mundo  absolutamente masculino (e ao que me parece, a coisa não mudou muito por lá).

E como eu sou uma fã incondicional de histórias, eis o segundo motivo pelo qual Philae entra na minha lista particular de recomendações  “must-go” no Egito: era aqui que a toda poderosa Cleópatra vinha prestar suas homenagens à deusa, devotíssima. Ela e o seu séquito desciam em seu barco perfumadérrimo e pomposo desde lá de Alexandria, de onde governava, entrava no Delta do Nilo e percorria todo o país até chegar, linda e poderosa, ali em Aswan.

Mais exatamente onde eu estava agora.

[learn_more caption=”Momento Dondeando por aí também é cultura!”]

  • Cada faraó era visto como filho/encarnação de um determinado deus, que seria o seu protetor, e tal “herança divina” era declarada no próprio nome: “Ramsés” vem de “”, “Amenófis” vem de “Amón”, “Seti” vem de “Seth”, e por aí vai. Cleópatra já vinha da dinastia grega dos Ptolomeus, mas como rainha egípcia, torna-se filha de Ísis, a deusa-mãe;
  • Rezam os hieróglifos que algumas vezes a soberana ia até o templo de Ísis fazer oferendas e pedir iluminação à deusa na hora de tomar grandes decisões (amorosas, inclusive);
  • Numa destas visitas, ela teria ouvido falar sobre o poder letal da picada de um tipo específico de cobra – e guardado essa carta na manga, caso um dia precisasse!*

 *Mesmo que hoje estudos afirmem que a história da picada da cobra não procede (e o mais provável é que ela tenha ingerido uma bebida feita com plantas venenosas), a lenda acrescenta um “elán” na história, uma vez que a serpente também é considerada pelos egípcios como a encarnação da deusa Ísis. Assim, simbolicamente, Cleópatra teria sido “salva” pela própria protetora. Captou?[/learn_more]

 

E agora, cientes de toda esta história, bora conhecer o templo com outros olhos.

 

Vista do complexo principal do Templo de Philae. O acesso só pode ser feito por barco.

 

É bem verdade que, dependendo se Aswan estiver no início ou no final do seu roteiro do Egito, a visita a Philae vai ser apenas “mais um” templo a ser visto.

E é exatamente por isso que as histórias por trás das pedras é que fazem a diferença. Por isso, ao visitar Philae, vá com olhos cuidadosos.

Porque não sei dizer se é porque o templo era dedicado a uma deusa, e cuidado por sacerdotisas, mas é que o templo  tem um ar, digamos, feminino.

Digo isto pela delicadeza bem preservada de cada um de seus detalhes. Afinal, já não é de hoje que gostar de cuidar de beleza e de casa é coisa de mulher…

As colunas chamam a atenção pelo detalhe e preservação dos ornamentos. Parou para pensar que isso aí foi construído há quase 2300 anos atrás?

 

Uma visita aos templos egípcios permitem viajar bastante no tempo. Especialmente lá dentro, ao redor de todas as imagens contando histórias da vida de Ísis, deusa da feminilidade, da fertilidade, da pureza e da sexualidade (uh-la-lá!).

Vale a pena levar uma lanterna, para ver os relevos com mais detalhes. Alguns ainda possuem resquícios de tinta.

Detalhes da parede de uma das câmaras internas, dedicada às oferendas: reparem que as cenas (que contam uma parte da história) foram esculpidas em alto-relevo, uma técnica elaborada que dá uma certa tridimensionalidade às imagens.

As colunas egípcias são, em geral, um espetáculo à parte. Como o templo começou a ser construído durante a dinastia dos Ptolomeus (gregos), há um misto de influências egípcias e gregas na sua construção. As de Philae não se aproximam em termos de grandiosidade das do Grande Hall do complexo do templo de Karnak (escreveremos sobre ele em breve!) mas são igualmente interessantes. Imaginem todas elas pintadas, com seus desenhos decorados e perfumada com essências de flores e incenso… Perambular por elas é um exercício de imaginação e retorno no tempo – em especial para pensar no quanto da cultura antiga de civilizações de outros tempos foi se perdendo ao longo dos anos, transformando a beleza em mistério e história.

Philae, ainda assim, é um dos templos que melhor conservaram sua aparência. Sinal de que o santo pode até ser forte, mas a deusa é mais ainda!

É bacana viajar nas colunas dos templos e pensar que, naquela época, elas eram todas decoradas e coloridas.

E o trocadilho é literal. Porque,  embora conseguindo se manter “enxuta” por bastante tempo, Ísis também sofreu à beça. Pois uma das coisas que chama a atenção, junto com a beleza das imagens esculpidas, era o fato de que algumas possuíam os rostos e corpos dos deuses depredados.

Reparem nestas marcas verticais no rosto e no corpo das imagens esculpidas… Erosão ou vandalismo?

– Isso parece marca de machado, ou algum instrumento desse tipo. Será que foi de propósito?

– Não, acho que foi desgaste natural do tempo.

– Mas só na cabeça das imagens? Em várias imagens? A erosão é tão certinha assim?

Não, não é. De fato, o culto a Ísis sobreviveu durante muito tempo, mesmo após a conquista do Egito pelo Império Romano – e até mesmo se alastrou para outros lugares (tiveram cultos na Hungria e Londres). Porém, Aswan foi o lugar onde o culto resistiu por mais tempo – em parte protegido pela distância da cidade com as principais cidades do norte do Egito. Ísis, considerada uma deusa amável e protetora, foi combatida principalmente pelos primeiros cristãos, entre os séculos III e V (alguns historiados mencionam a criação de um culto à Virgem Maria naquela época como uma das formas criadas pelos primeiros cristãos para conquistar os fiéis de Ísis).

Com o tempo e o crescimento da força do Cristianismo como religião oficial do Império Romano, aos poucos os fiéis de Ísis foram perseguidos e as imagens de suas divindades, descaracterizadas, depredadas. O templo deu lugar a uma igreja.

E – deixando questões religiosas para lá – mais uma vez a intolerância vence a arte. Pena para nós.

As paredes externas do templo são esculpidas com imagens de deuses egípcios em proporções monumentais – assim como, infelizmente, são também as marcas da depredação

 

Mas as vezes a mão que destrói é a mesma que salva. Prova de que o Templo que você vai conhecer é o mesmo que Cleópatra visitou – mas não era exatamente naquele mesmo ponto. Era a alguns metros dali, mais especificamente na área submersa pelo que é hoje a represa de Aswan. Este templo estaria perdido sob as águas desde os anos 60, quando uma ação conjunta da UNESCO em parceria com o governo egípcio transferiu, pedra sobre pedra, o templo para um lugar mais elevado – a ilha de Philae.

Uma salva de palmas, por favor.

 

Como chegar:

O acesso hoje é feito de barco: é preciso ir até o deck de Shallal (paga-se tickets, e se você for de carro ou táxi, o motorista espera que você pague também o estacionamento). Paga-se ainda o barco (pechinche sempre! Eles sempre jogam o preço lá em cima – e o recomendado é não pagar mais do que 15 libras egípcias) e, caso vc deseje ficar mais de uma hora perambulando na ilha, o barqueiro te espera sem problemas – mediante uma simpática gorjeta, óbvio.

Aliás, uma curiosidade: repare se serão dois barqueiros que vão com você! E se quiser saber o porquê, clique aqui!

Há também um show noturno de luzes e som, semelhante ao que acontece em Karnak e nas Pirâmides (não fui em nenhum, mas ouvi indicações que este aqui é o melhor. Não duvido – casa de mulher é sempre mais caprichosa!). Costumam ser duas a três apresentações por noite (mas é melhor checar os horários lá no local – sempre tem um guia ou um folheto informando). Os tickets são comprados horas antes do show começar, e existem descontos para quem tem carteira de estudante.

 

E aí, meninas.. Vamos? 🙂

 

Comments

7 COMENTÁRIOS

    • Luiza, não sei a que muro exatamente você se refere, mas essas fotos foram feitas no Templo de Philae, no Egito, e de acordo com a Wikipedia, foi construído em algum momento durante a dinastia de Nectanebo, entre 300 e 30 anos AC.

  1. Adorei sua matéria!

    A primeira foto é de uma sala anexa ao templo de Philae que segundo o guia que me acompanhou durante este passeio, este seria o local de descanso de Alexandre e posteriormente, poque não da própria Cleópatra. Os capteis das colunas do estilo “grecoromano” são realmente magnifico e para complementar o que você fala sobre a feminilidade deste templo; Você notou a quantidade de rosas logo na entrada do pátio? O Egito é muito lindo e este templo nem se fala! Abraços

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