Eu vou te contar um segredo: eu acho que  gosto de taxistas.

E eu também aposto que você torceu o nariz agora. Pois bem, gosto. E claro, como tudo o que a gente gosta tem lá suas exceções, seus momentos e suas condições. Mas em geral eu gosto deles sim.

E explico: é que nessa vida de viajar de lá para cá, eu chegava num aeroporto numa cidade (estranha ou conhecida) e já saía para a fila de taxi (o aeroporto de Congonhas que o diga). E aí, não raro, seria com um taxista que eu trocaria as minhas primeiras palavras sobre a cidade – que poderiam ser desde “Itaim Bibi, por favor” ou “moço, e aí? Já tá quanto o jogo?”.

Isso sem falar nas impressões gerais sobre política, futebol e a principal, tempo. “Tem chovido muito aqui?”. “Não, tá meio seco. Tá chovendo de onde a senhora vem?”. E aí começa.

Tem, claro, aqueles dias em que eu estou numa vibe Rihanna e só entro no táxi na vibe “Shut up and drive”. Mas é só de vez em quando – e geralmente, no táxi de volta para casa, quando estou mortinha da silva.

Só que a coisa muda quando eu estou num outro país ou numa cidade em que nunca estive, por exemplo, e pego o táxi do aeroporto. Como geralmente os aeroportos são distantes, a corrida é longa. E aí, tudo é novidade –  e o taxista passa a ser o primeiro “local” com quem eu estou conversando.

passarinho de pelucia
Flagra do interior de um táxi que pegamos em Alexandria, Egito.

Aí, não raro, bato papo mesmo. E na maioria das vezes, eu tive boas surpresas.

Na minha primeira vez em Salvador, por exemplo, o taxista me levou do aeroporto até meu local de destino pela praia, por conta própria, só para me mostrar como era “a tarde em Itapuã” depois que eu contei que era minha primeira vez na cidade e perguntei se era ali mesmo a praia da música.

Ah, e não me cobrou a mais por isso. 🙂

Teve um de São Paulo que, ao descobrir que eu era do Rio, veio todo contente pôr no som do carro um CD de funk pancadão tipicamente carioca para me agradar (“não é o que vocês escutam por lá? Que sorte que eu tinha aqui no carro, tô colocando para você!”).

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Ao que eu recusei, óbvio – mas registrei e agradeci a iniciativa e a gentileza. Porque se de boas intenções o inferno está cheio, gentileza é o tipo de coisa que anda meio em falta no mundo e a gente tem que valorizar quando vê pela frente.

Teve, ainda, um taxista aqui em Londres que me buscou uma vez e que, apesar de ter uma postura impecável e mega profissional, não abriu a boca, uma seriedade do ó.

Eu, bem, estava no meu segundo dia na cidade. Ou seja, doida para falar da vida, do mundo, de tudo.

Perguntei de onde ele era. “Senegal”. Putz, não ajudou muito: salvo a expressão “calor senegalês”, não sei nada sobre o Senegal, exceto uma coisa que de repente saltou à minha memória:

– Olha, eu nunca fui ao Senegal, mas sabe o que eu mais lembro do país de vocês? Quando vocês deram um sabão de 1X0 sobre a França na Copa. Foi bem legal aquilo, viu?

Pelo retrovisor eu vi que ele abriu um sorrisão de orelha a orelha, daquele de deixar o olho apertadinho. “Você assistiu??”

E começou, todo faladeiro. Total transformação.

Futebol. A melhor solução para os silêncios da vida. 🙂

E teve um que, bem, não era taxista, mas era o motorista de uma van, e que era quem levava os turistas de um albergue até o Pantanal e de lá de volta para o hotel. Lembro que ele tinha uma cara meio mal-encarado e eu teria que ficar com ele, sozinha, dentro do carro, dirigindo por umas duas horas. Começou a passar na minha cabeça todos aquelas possibilidades horrorosas que a mãe da gente vive falando (“vai que acontece alguma coisa, e eu sozinha aqui com esse cara, e no meio do nada!!”).

Confesso que bateu um receio. Mas também não queria desistir do passeio. Mas aí lembrei que quem canta, seus males espanta. E como eu não sabia cantar, resolvi conversar mesmo.

E comecei a conversar. Conversei, conversei, disse como estava contente de estar em Cuiabá, como estava adorando a cidade, como estava calor, etc, etc, etc. Puxei assunto do fundo do baú – afinal, eu tinha duas horas de ida e mais duas de volta com ele, né?

Pois o que aconteceu? No início ele ficou meio reservado, depois foi começando a falar, depois falou bastante e, uma hora depois, ele estava parando o carro no meio do acostamento para me mostrar as árvores do mato que estavam carregadinhas de caju – um segredo local de quem dirige por lá, e ainda pegou do pé umas frutas para eu experimentar. Foram os cajus mais doces que já comi na vida.

Me mostrou onde estava sendo construindo o estádio de futebol de Cuiabá, da Copa (que na época era só um buraco no chão). Me explicou como é a forma correta de se temperar a carne de jacaré. Parou o carro para me apontar cada animal na Transpantaneira (e ainda teve a paciência de Jó para me esperar fotografar com aquele ângulo exato, sabe como é!). No fim, ao me levar no aeroporto de volta, ainda me abraçou e disse que, quando eu voltasse, que eu o avisasse que ele me levaria na casa dele para conhecer a mulher dele, com quem é casado há milhões de anos e que faz a melhor piraputanga assada na brasa com farofa de banana de todo o Mato Grosso, quiçá do Brasil.

Inclusive, foi um passeio tão bacana que me empolguei em transformar em vídeo. Vê só:

Foi com ele que eu aprendi a primeira grande verdade sobre os cuiabanos: que são um povo reservado e na deles, mas que abrem fácil as portas de sua casa a todo visitante que deixa de ser visitante para virar amigo. 🙂

Enfim: talvez eu tenha que refazer a frase lá de cima: eu gosto de taxistas, mas não pelos taxistas. Mas porque eu gosto de histórias e de pessoas.

E, claro, já passei por maus bocados também. Por taxistas loucos e tensos. Tipo, teve um que a polícia mandou ele parar, sair do carro, revistar e ainda queria levar ele preso – e eu lá dentro do carro, esquecida, no meio da noite e do nada, sem saber o que fazer.

Ou, no Egito, quanto o taxista colocou minha mochila em cima do seu carro (que não tinha nenhum suporte de bagagens, nada), mandou eu entrar dentro do carro, fechou minha porta, sorriu simpático dizendo “no worry, everything ok” e disparou com o carro pelas ruas, enquanto eu só me limitei a ficar olhando para a janela de trás esperando para gritar para o carro parar na hora em que a minha mochila caísse na rua. Em tempo: ela não caiu, mas para o resto da minha viagem no Egito eu já estava com o conceito formado de que itens de segurança, ali, tem um significado bem diferente do que para mim.

Ou seja: se eu continuo tendo uma boa impressão de taxistas é porque ou eu sofro de perda de memória seletiva ou de fato eu tive a sorte de ter mais boas experiências do que más. 🙂

****

Então: isso tudo foi para dizer que foi essa semana que eu reparei que, na maioria das ocasiões da minha vida, foram os taxistas o meu primeiro contato com o país – e que, se aquela história de que a primeira impressão é a que fica é verdade, devo dizer que eles contribuíram, de alguma forma, para eu formar as primeiras impressões da minha viagem por um lugar.

Tipo, se a gente pega um taxista gentil logo no primeiro dia de férias, a gente toma quase como que um sinal divino de que vai dar tudo certo e nossa tão sonhada viagem tá sendo abençoada. Mas também quando a gente sofre um golpe de um taxista no aeroporto, logo assim que chega, já bate aquela “ranzinzice” aguda e aquela suspeita que faz a gente pensar em se preparar porque tudo vai dar errado dali em diante.

Acho, às vezes, que se eu trabalhasse no bureau de turismo de alguma cidade, eu trataria taxista de aeroporto como coisa séria: é a primeira boa impressão de um turista (ou o principal anti-marketing também).

Mas por que tudo isso? É que isso tudo veio à minha cabeça na semana passada, quando pus meus pés pela primeira vez na Irlanda esta semana, num rápido voo de Londres. E, bem, peguei um táxi.

O motivo da viagem era participar de um evento na Irlanda, e eu chegava em cima da hora. Então, depois do tiozinho da imigração que nem olhou na minha cara, foi com o taxista meu primeiro contato com o país.

Ele parecia ter um sorriso enorme e caloroso estampado no rosto – aliás, fui perceber dois dias depois que isso é uma espécie de acessório obrigatório irlandês. E quando eu disse que era minha primeira vez na Irlanda, então… foi como se ele sentisse a importância do trabalho que ele estava fazendo: ser a minha boa impressão do país.

Foram 25 minutos de carro até o hotel. E sem ser chato ou intrometido, ele dizia “por favor, volte com calma para conhecer meu país”. Me contou como é a região. Falou da paisagem, linda, linda – mesmo debaixo de chuva. Me explicou onde era o ponto de ônibus, a estação de trem, me indicou o tanto que eu tinha que andar, qual trem pegar, quanto pagar. Disse que meu hotel era lindo no verão, com a vista limpa do mar por perto. Falou como as crianças irlandesas aprendem gaélico, o idioma oficial irlandês. E por fim, ao me deixar no hotel, ainda me recomendou que “eu tivesse uma estada abençoada”.

Religiosidades à parte, eu acho lindo quando uma pessoa deseja que a gente tenha um caminho abençoado. Ou uma benção de qualquer tipo. É tipo desejar o bem para o caminho de alguém, mesmo que seja um estranho. Tem coisa mais bonita?

Seria prematuro eu dizer que eu já amei a Irlanda toda já saindo do taxi. Mas não seria mentira.

E agora, alguns dias depois da minha chegada no país, embora eu ainda esteja inexperiente em matéria de Irlanda, em nenhum momento nenhuma das impressões que eu tive no país foi diferente do que eu tive ali no táxi.

Irlandeses, ô povo querido. Quanta gentileza, o tempo todo.

São os motoristas de ônibus que sorriam para TODAS as pessoas que entraram.

São os(as) motoristas que davam passagem – e sorrisos.

São os guardas, sempre de uma gentileza incontestável.

E, claro, os taxistas.

Acho que só agora, eu entendo o que minha prima quis dizer ano passado, quando chegou em Londres pela primeira vez depois de morar alguns meses em Dublin: ela reclamou que os motoristas ingleses eram uns grossos.

Eu, que os achava uns lordes em educação, discordei. Defendi.

Mas agora que eu voltei de lá, eu entendo. É que em Dublin os motoristas – todos – são os queridos em simpatia e fofura.

Aí, fica difícil mesmo competir.

*******

Pois é, eu juro que quando eu comecei a escrever, eu queria falar sobre a Irlanda. Mas aí eu lembrei do taxista de Dublin, e aí uma coisa levou à outra, e aí… acabei fazendo esse tratado todo a la Àngélica, que já se amarrava num táxi há tempos.

Peço desculpas desde já pelo post que começou num pé e acabou no outro. Mas viagem me faz divagar mesmo – afinal, onde fazer isso que não no meu blog?

E, bem, se vocês gostaram do post, melhor ainda: esta vai ser a tônica dos posts de Dublin, que vão começar por aí: cheios de histórias e de um bom papo enquanto a gente vai de um lugar ao outro.

E, pensando bem, não é assim que acontece numa corrida de um taxista gente boa? 🙂

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