Já dizia Jung que “a imagem da criança representa a mais poderosa e inelutável ânsia em cada ser humano, ou seja, a ânsia de realizar a si próprio”.

Algumas crianças se descobrem líderes. Outras se descobrem artistas. E, por fim, algumas se descobrem viajantes incorrigíveis. Tipo eu.

Se não no início pela prática, era pelo espírito. Curioso. Ingênuo. Alegre. Puro.

E, se as perninhas eram pequenininhas demais enquanto criança para sair por aí, sobrava para nós reconhecer a essência desbravadora através das morais das historinhas que nos liam toda noite.

A maioria delas falando de personagens aventureiros, de lugares fantásticos e de morais que, acho, complexas e mais próprias a adultos do que a crianças. Mas que nós, projetinhos de viajantes, entendíamos tudo.

Crescemos e agora viajamos para dedéu. Ou só viajamos para dedéu?

Enfim… Inspirada no Dia das Crianças, lhes apresento esse humilde post com as historinhas que um dia povoaram as cabecinhas das crianças crescidas que, como eu, queriam ser viajantes incorrigíveis quando crescerem.

Todas elas falando de viagens e dos ingredientes indispensáveis que fazem vocês dois serem o que são: o viajante que é hoje, e a criança que existe aí dentro ainda…

 O Mágico de Oz (Esperança)

Não lembro desde quando que começou a minha paixão por fotos de caminhos, mas certamente ela se consolidou quando eu li a parte da Estrada de Tijolos Amarelos.

O Mágico de Oz

 Porque a história em si tem tudo que uma viagem precisa ter para ser inesquecível: é uma viagem que começa do nada, como um furacão que carrega a menininha para outro lugar. Mas aí ela vai fazendo amigos, conhecendo outros bichos, vivendo algumas aventuras lá e cá, e vai caminhando e cantando e seguindo a canção até chegar à tal Estrada de Tijolos Amarelos, que enfim a levará ao Mágico de Oz. Estrada essa que significa, no filme, o caminho para aquele que realizará todos os seus desejos.

Sei lá… É meio poético, eu sei. Mas a idéia de uma estrada, linda, levando para um lugar mágico, e que lá tudo é possível – é ou não muito parecido com o ideal adulto de viagem? A gente não precisa nem saber o que quer fazer ao chegar lá, mas é fato de que o percurso todo em si se torna mais prazeroso e cheio de leveza e esperança.

E, como em toda viagem, o desejo final é a mágica do sapatinhos vermelhos: voltar para casa.

 

Alice no País das Maravilhas (Curiosidade)

OK, pode-se dizer que, geograficamente, ela nem viajou tanto assim – afinal, a toca do coelho ficava bem pertinho da casa dela. Mas uma vez lá, foi uma infinidade louca de lugares estranhos, bichos surtados, coisas malucas e aventura insanas que só sendo uma criança para conhecer todo um mundo novo daqueles sem pirar junto.

Deixando de lado os milhões de significados subliminares da história, o que fica pra mim é a curiosidade da Alice que fez a viagem dela ser o que foi – intensa.

A verdade é que a gente começou também nossas primeiras viagens, desde crianças, assim como ela – entrando na toca do coelho por mera curiosidade. E, tenho certeza, é só quando a curiosidade parar que a gente vai sossegar de sassaricar por aí. Ou seja, nunca.

Peter Pan e a Terra do Nunca (Inocência)

Eu adorava o conto, mas particularmente acho que passei a gostar mais dele depois que cresci. Acho que foi porque caiu a ficha. Porque só quando a gente cresce que entende o quanto é gostoso contos de crianças que querem permanecer crianças.

Peter Pan

Acho que é por isso que é gostoso ler essa história hoje, com outras crianças. Nos faz voltar àquela época gostosa em que a gente acreditava que, para voar, era só pensar em coisas boas – e aí sim, qualquer viagem é possível.

 

História sem Fim (Fé)

O filme conta a história dos jovens Bastian e Atreyu e suas aventuras na terra da Fantasia. Sejamos honestos: quem nunca se imaginou montado no simpático cachorrão voador Falcon voando por aquelas paisagens maravilhosas e, de quebra, ainda dando um susto nos coleguinhas malas da escola?

bastianfalcor
Foto retirada de um cena do filme.

 Mas personagens fantásticos à parte, é um filme feito para crianças, mas que mostra uma série de responsabilidades e cenas delicadas que mostram e exigem das crianças uma enorme maturidade e responsabilidade pela história que as cerca. É, por exemplo, quando a Imperatriz pede (implora, melhor dizendo) ao jovem Bastian que acredite sinceramente em fantasias para que a terra da Fantasia não desapareça. E o que dizer da cena, de arrancar lágrimas, em que Artax, o cavalo do Atreyu, não consegue atravessar o Pântano da Tristeza e morre? Um pântano que, relembrando, só pode ser atravessado por quem não tiver em seu coração pensamentos de medo.

É um filme que, feito para crianças, lhes diz sobre a enorme responsabilidade que elas têm: a de que só é possível salvar o mundo com a sua fé.

Isso fez toda a diferença no filme. E aqui, hoje, é mais do que indispensável.

 

O Pequeno Príncipe (Amor)

Talvez o maior conto infantil de um viajante escrito por outro viajante. Saint-Exupéry brindou o mundo com uma fábula tão simples quanto poderosa, de um principezinho que viaja por vários planetas até chegar a Terra, e em cada lugar conhecendo um personagem emblemático e aprendendo com ele.

Uma viagem que começa e termina por amor a uma rosa, e que, sendo uma viagem, aborda muito pouco sobre cada lugar que o principezinho visitou, deixando o foco sobre cada um dos personagens e eventos que aconteceram. Todos descritos sob a ótica de amizade, de simplicidade, de beleza.

Como a própria introdução do livro diz, é um conto para adultos e não para crianças. E, adultos ou não, se você for um viajante na essência, deveria ler sem falta. Sobretudo porque fala de valores de infância que a gente tem que aprender a resgatar de volta. Ensina a enxergar a poesia que está além daquilo que a gente vê.

E isso, para um viajante de verdade, é essencial. E invisível aos olhos.

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