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Chegando ao ponto tenso da viagem…

Aliás, os dois pontos mais tensos da viagem foram na Bolívia…
Chegamos em La Quiaca, depois daquela viagem super confortável (cof! cof! cof!) ás 7 da manhã, horário previsto.
Pausa para um comentário: viajar pelo mundo com os paradigmas de brasileiro de como as coisas funcionam aqui e acreditar que lá será de modo semelhante é furada – principalmente na Bolívia. Eu já sabia disso, mas volta e meia incorro no mesmo erro quando viajo mundo afora.
Paradigma 1: Eu havia optado por chegarmos de manhã cedo pois assim poderíamos cruzar a fronteira com tempo, tranquilas, e o dia estaria clareando… Tava um breu do Ó.
Paradigma 2: Teoricamente, eu achava que o ônibus pararia, já que era parada final, em algo que se assemelhasse pelo menos um pouco com uma rodoviária. Ledo engano!
Paramos num fim de mundo, no escuro, num lugar onde as ruas eram poeira pura, um monte de casinha baixinha de cor indefinível, com muita gente esperando para a gente descer e com isso eles subirem no ônibus. A única iluminação vinha de uma lâmpada amarela pendurada por um fio numa das janelinhas de uma casa próxima, onde – uhu! – funcionava a bilheteria, e só deduzimos isso porque o tiozinho de lá usava um boné da mesma cor que a jaqueta.
Nada de um lado, nada do outro, e aquele bando de gente que descia do ônibus cheios de sacolas nas costas iam desaparecendo do lugar, parecendo baratinhas correndo para o escuro.
Depois, uma escuridão só. Dava medo.
Paradigma 3: Eu havia visto num dos comentários da lista de discussão do mochileiros.com que atravessar a fronteira era tranquilo. Nunca acredito numa fonte só.
Não havia nenhuma placa indicando para que lado ficava a fronteira. Nenhum telefone. A cidade também não ajudava muito com placas – imagine ainda no escuro da noite, tá? E a gente, móóóórta de tensão (únicas gringas do lugar), vítimas fáceis de qualquer coisa.

Perguntei pro tiozinho do guichê onde ficava a fronteira com meu portunhol exemplar (ah, já disse para vocês que yo no hablava una palabrita de español? Entonces! Fudió para nuestro lado!). Ele pergunta: “São só vocês duas?”, nos olhando incrédulo.
Nesse momento, Deus, que é pai, brasileiro e também conhece a Bolívia como ninguém, nos envia uma senhorinha muito simpática que se apresenta para a gente e diz ao tiozinho do guichê que vai levar a gente lá, pois também vai atravessar. Ele só olha para ela e diz “Ok, mas atravessem rápido e evitem ficar ali muito tempo!”.
Pronto. Nós, que estávamos suuuuuuuuper tranquilas, agora já estava achando que seria considerada uma refugiada, e que nego ia querer nossos corpitchos como pagamento por ter entrado no país!
Mas como a falta de opção faz maravilhas na hora de decidir alguma coisa, fomos andando com a tiazinha, e no final ela foi nos tranquilizando bastante. Foi falando que também tinha duas filhas da nossa idade, e por isso estava nos ajudando, e que morava na Argentina mas tinha uma casa em Villazon e de tempos em tempos tinha que ir lá para ver como as coisas estavam, etc…
Sei que fomos andando por um bom tempo, andando rápido na medida do possível (e eu digo realmente na medida do possível, pois não sei se era tensão, o peso da mochila ou a altitude que já tava começando a pegar, porque eu e Roxy não conseguíamos respirar direito. Tentávamos, sempre que possível, dar uma paradinha para dar aquela “arfada” de ar, e que nada era a mesma coisa.
Chegamos ao portão que separa os dois países. Não tava no melhor dos climas para tirar a câmera do bolso e turistamente tirar fotos por aí.
O guardinha argentino, todo uniformizado, carimbou o passaporte e pronto. Nenhuma fila, nenhum problema. Mas tinha uma zona do cão no guichê da Bolívia para carimbar o passaporte.
Parecia meio cena de filme. Uma salinha de concreto batido, umas 3 luzinhas acesas, um monte de guardas com cara de poucos amigos, com uma expressão de simpatia e delicadeza semelhante à do Júnior Baiano, e na parede alguns quadros espalhados: uma cruz, o de uma santa deles lá, o do mapa da Bolívia e o do Evo Morales, esse último em moldura dourada e colocado em destaque no centro da parede.
Consideração Boliviana 4: Na Bolívia, Evo Morales é assim com Deus e o povo do céu de lá. Inclusive, a julgar pelas fotos, manda mais na hierarquia que qualquer outro santo.
Fui preenchendo o documento de entrada no país enquanto esperava na fila e assistia, tensa, um dos guardas ser a grosseria em pessoa com quase todos os gringos da fila. Um carinha americano, então, foi tratado com um desprezo sem tamanho.
Consideração Boliviana 5: Boliviano detesta americano. Ok, eles podem até ter suas razões, mas eu sou contra tratar mal qualquer tipo de turista, independente da nacionalidade.
Só que, quando chega a nossa vez, e a gente entrega o passaporte, o tiozinho da “polizia de imigración” só olha nosso documento, diz “Oh, Brasileñas! Bienvenidas!”, dá até um sorrisinho (!!) e libera a gente sem problemas. Nada como o charme da mulher brasileira para melhorar a relação entre as nações!
Tudo tranquilo, fomos subindo as ruas de Villazón (cidadezinha humilde toda a vida) para procurar uma casa de câmbio e a estação de trem até Uyuni.

 

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