“Estou louca para começar nossa viagem a Portugal e me acabar de comer pastel de nata”.

Eu tinha anunciado isso à Sara, minha amiga portuguesa, antes de embarcar para Porto para fazer a Rota do Vinho Verde pela região do Minho, norte de Portugal. Apesar de nunca ter ido a Lisboa até hoje e experimentado o famoso pastel de Belém, eu já me considerava mais do que abençoada com os pastéis de nata quentinhos da cidade do Porto que, acompanhados de café bem forte, era como um delicioso e ensolarado início de dia para mim, mesmo que tivesse caindo a chuva que fosse.

Ou seja, eu tinha poucas certezas na vida, mas uma delas é que uma semana em Portugal era uma promessa de bons vinhos e pastéis de nata todos os dias, e para mim isso era algo próximo à felicidade.

Só que foi aí que a Sara, seríssima, anunciou:

Amiga, eu tenho uma missão nesta viagem. Se eu conseguir te provar que Portugal é muito mais do que pastel de nata, já estou realizada.

Em minha defesa, não era como se eu não soubesse disso, pelo menos na teoria. Sei da fama da variedade quase infinita de doces portugueses, nem que seja de vista ou pelas histórias. Eu tenho a memória afetiva dos doces que via à venda na Confeitaria Colombo no Rio de Janeiro, ou em outros restaurantes portugueses que deram as caras em terras brazucas, antes de eu ter posto os meus pés na terrinha. Eu ~sei~ que Portugal vai muito além do pastel de nata, ou de Belém.

Mas era também um saber limitado que só vivia na teoria, porque a verdade é que eu nunca me aprofundei para além do que o que via na vitrine. Era saber o que tinha de doce português, perguntar do que é feito, achar tudo lindo e, libriana que sou, ficar numa dúvida mortal do que escolher para no fim optar sempre pela segurança dos doces que eu já conhecia –  que, invariavelmente, era o pastel de nata ou o papo de anjo. Falha minha.

Ou seja, eu sabia pouco ou nada dos doces portugueses que via, salvo o que era anunciado no marketing. As freiras portuguesas usavam as claras de ovo para engomar roupas. O que fazer com as gemas que sobravam? Doces. Era o que me falavam, era o que eu “sabia”.

A proposta da Sara era mergulhar mesmo. Ela, como boa portuguesa apaixonada pela sua terra, blogueira do Portoalities e guia de turismo no Porto, começou a pesquisar a história da doçaria portuguesa e os doces típicos de cada uma das cidadezinhas que visitaríamos. Mudamos nosso roteiro um pouquinho: além de incluir a visita às vinícolas, incluiríamos também as docerias mais recomendadas e antigas, porque Portugal é cheio disso: doces e comidas repletos de histórias e segredos, e sabemos que os melhores segredos são sempre os mais escondidos.

Então, este post é sobre isso: paralelamente à Rota do Vinho Verde que fizemos (e que você pode encontrar todos os posts aqui), montamos também uma “Mini Rota dos Doces Portugueses” da região do Minho, no Norte de Portugal.

Que eu, cá entre nós, prefiro chamar de “A Estrada dos doces amarelos”. Desculpe-me, mas sou dessas que adora viagens e historinhas. 😍

A Estrada dos Doces Amarelos: onde comer doces portugueses no Minho

Essa foi a rota que fizemos (incluindo vinícolas, docerias e restaurantes que visitamos):

A rota foi perfeita: alugamos e devolvemos o carro no aeroporto do Porto, partimos para o norte com calma para entender o que é vinho verde e conhecer as melhores vinícolas que o produzem, exploramos as delícias dos doces de cada região e ainda fechamos com chave de ouro na região do Alto Douro vinhateiro, onde provamos os deliciosos vinhos do Porto, moscatéis e vinhos tintos da região do Douro – e com a vista linda do Douro, ainda! 😍

Você pode ver a Rota do Vinho Verde completa e todos os posts sobre ela aqui

Mas especificamente sobre os doces portugueses, a idéia da viagem foi pesquisar e experimentar os doces (conventuais ou não) portugueses que sejam típicos de cada uma dessas regiões e, quando possível, tentar chegar o mais perto da receita e da história original para contar aqui.

Eita, mas porque o mapa? A gente não pode comer doce em qualquer lugar?

Pode sim. Mas da mesma forma que o melhor pastel de Belém fica em Lisboa, os outros doces tem suas histórias e, por assim dizer, suas “quase” certidões de nascimento, e enquanto fazíamos a rota dos vinhos verdes achamos que valia a pena pesquisar in loco onde comer nos outros lugares também.

Afinal, a vida é curta para a gente gastar com calorias sem história, né?

O que comer em Melgaço: Bucho Doce e Manjar dos Reis

Eu confesso que eu não consegui experimentar nenhum dos dois por lá, infelizmente. Tivemos um atraso na retirada do nosso carro no aeroporto do Porto e que complicou nosso tempo de chegada e agenda pela cidade. Mas fica a dica, porque ambos são sobremesas super típicas da região.

O bucho doce tem este nome exatamente pelo motivo que você pensou: antigamente era feito com o bucho de um animal (o porco, no caso); usar vísceras e sangue de animais era parte do cotidiano da cozinha no Minho. Basicamente, é feito à base de pão, que é adicionado à uma mistura de leite, ovos, farinha, açafrão, canela e sal. Essa combinação é colocada dentro de uma sacola plástica hoje (substituindo o bucho) e a mistura é colocada para cozinhar por algumas horas. O resultado é um doce de pão que pode ser cortado em fatias e servido com geléia ou café. Costuma ser oferecido como sobremesa nos festivais gastronômicos de Melgaço, junto com pratos à base de cabrito e muito vinho verde.

Este é um vídeo do site português No Ponto, que dá uma boa idéia de como é o doce!

Onde comer bucho doce: Restaurante Miradouro do Castelo, na região do Castro Laboureiro (30 minutos do centro de Melgaço – GPS: 42.027714, -8.159944).

Já o manjar dos reis é de uma receita tradicional do antigo Convento de Fiães, que ficava em Melgaço, e pode-se dizer que é uma variação do arroz doce. O arroz doce em si é muito popular em Portugal e cada região tem uma forma de fazer diferente – muito porque não havia uma receita escrita definitiva e a tradição era passada de forma oral e na cozinha, abrindo espaço para variações aqui e ali. No caso do manjar de reis do Convento de Fiães, o arroz é cozido sobre muito açúcar aquecido, várias gemas de ovos, um pouco de água e raspas de limão e amêndoas (doces conventuais costumavam levar amêndoas e muita gema).

Onde comer manjar dos reis: Infelizmente eu não achei um restaurante que ofereça essa sobremesa como parte do cardápio fixo, apenas como oferta em época de festivais gastronômicos 🙁. Então eu peço aqui ajuda aos universitários: se alguém tiver provado e amado o manjar de reis em Melgaço, me conta aqui onde foi?

Leia também: Conhecendo Melgaço, onde começa a Rota do Vinho Verde em Portugal

 

O que comer em Braga: Pudim Abade de Priscos e Tíbias de Braga

Ah, pudim Abade de Priscos, que delícia…! 😋

À primeira vista ele parece um pouco uma fatia do nosso famoso pudim de leite brasileiro, mas a consistência é mais diferente e elaborada. Especialmente porque a receita dele leva um cálice de um bom vinho do porto e toucinho (isso mesmo, de porco – de preferência não muito gorduroso). Depois, ele vai para uma fôrma com açúcar caramelizado para ser cozido em banho-maria, tal qual nosso pudim. Tudo isso quer dizer que, em tese, a receita é fácil, mas o preparo é dificílimo para chegar no ponto exato.

Reza a lenda de que quem criou foi um homem chamado Manuel Joaquim Rebelo, que era abade da frequesia de Priscos, em Braga, e que tinha certa paixão por gastronomia. Este seria uma das poucas receitas que ele liberou para o conhecimento público – diz a lenda que muitas das suas receitas jamais foram escritas, e ele guardava tudo de cabeça. A fama do seu talento na cozinha foi tanta que ele era convidado para preparar banquetes para ministros, reis, etc.

Moral da história: este pudim é considerado uma das maravilhas gastronômicas de Portugal e há todos os anos concursos entre pessoas e empresas de quem faz o melhor pudim do país!

Onde comer o pudim Abade de Priscos: Por incrível que pareça, o melhor pudim Abade de Priscos que eu comi não foi em Braga, e sim em Melgaço, na Adega do Sossego (Peso Paderne, 4960, Melgaço). É este da foto. Outra indicação boa fica em Guimarães, no restaurante Histórico (Rua de Valdonas 4, Guimarães, Portugal), que já foi premiado como o melhor pudim também.

Nota da autora: Pode ter sido uma impressão minha, mas no caso específico de alguns doces mais queridos, como o Pudim Abade de Priscos, eu sentia que os melhores doces eram sempre feitos de forma caseira, muitas vezes por quem é de família doceira e que já tem prepara estes doces há anos. Por isso, não me surpreendi quando, ao googlar “o melhor pudim Abade de Priscos de Braga”, eu encontrava referências a pessoas comuns (leia-se: não são restaurantes ou confeitarias) que preparam em suas casas e vendem sob encomenda. E eu super acredito que sejam esses doces escondidos, mesmo, os que tem o melhor paladar da vida!

Por isso que, apesar de reconhecer que não é a coisa mais prática quando se é um viajante de passagem, coloco a dica aqui de qualquer jeito: quem tiver tempo e quiser encomendar um pudim caseiro e delicioso, pode encomendar com a Tia Bina, em O Pudim da Tia Bina.

Já as tíbias de Braga são típicas da cidade e tem uma massa folhada, bem leve, recheada com um creme de ovos (ou, pelo menos, essa é a receita tradicional, porque há versões com café ou avelã).

Onde comer Tíbias em Braga: A melhor pastelaria, aparentemente, se chama (pasmem!) Tíbias de Braga (Praça Conde São Joaquim, 30/34). Tem uma área externa bem bacana e o chef é bem conhecido (ah, eles servem o Pudim Abade de Priscos também). Outra opção é o Café Lusitana (R. Dr. Justino Cruz 127), dica da querida Camila Navarro, que escreveu outro excelente post sobre os doces portugueses, só que cobrindo mais as regiões de Lisboa, Sintra, Coimbra, Aveiro, Mafra e Alcobaça.


Dica do coração❤️: O lugar onde eu melhor comi em toda esta viagem foi em Braga, no restaurante Arcoense (Rua Engenheiro José Justino de Amorim 96, Braga). E não digo só de sobremesas, foi tudo absolutamente maravilhoso! É recomendado fazer reservas com antecedência, que podem ser feitas no email geral@arcoense.com.

Minha dica: experimente o Cabrito Pingado (tem que ser reservado com antecedência de 24 horas para eles poderem preparar, e dá para duas pessoas tranquilamente). Além disso, experimente também a sobremesa encharcada de pinhões – não é da região de Braga, mas vale a descrição aqui porque de todas as sobremesas foi a que eu me apaixonei!

Encharcada de pinhões, no restaurante Arcoense, em Braga

 

O que comer em Guimarães: Tortinhas de Guimarães e Toucinho do Céu

Guimarães é um ótimo exemplo de cidade em que a história dos doces está intimamente ligada à história de Portugal. Primeiro, talvez, porque o país nasceu nesta cidade, e com o ele nasceu também uma série de conventos e mosteiros ao redor desta região. Um dos conventos mais famosos foi o convento de Santa Clara em Guimarães, e é nele que começa a história da mais famosa casa de doces do norte português: a Casa Costinhas.

Antes de partir para os doces, procure visitar a Casa Costinhas, uma das doçarias mais famosas de Guimarães. Ela fica na rua da Santa Maria 68, centrinho da cidade, e tem uma entrada super discreta, igual às senhorinhas que trabalham por lá. E tem também uma história que vale a pena contar, já que também explica de forma parecida como nasceram também muitos dos doces conventuais portugueses.

A casa foi fundada por duas irmãs, Maria e Adelina Ribeiro da Costa. Elas ficaram orfãs bem pequenas e tiveram que ir aos cuidados da única parente viva, uma tia que era freira do Convento de Santa Clara. Por causa disso, as duas foram viver no convento de favor, e lá recebram tanto a educação religiosa como a culinária, ajudando as freiras na cozinha. As freiras clarissas (devotas de Santa Clara e minhas xarás) que viviam no convento em Guimarães eram famosas pelos doces que faziam, produzidos para a venda para levantar fundos para os mosteiros.

Vale lembrar que naquela época as receitas não eram escritas (ou se eram, eram guardadas a sete chaves) e muito das medidas e do ponto exato de cozedura dos doces era medido “no olho”. Por isso, os melhores doces eram disputados e suas receitas acabavam virando “segredo de estado”, porque também asseguravam uma possibilidade de renda maior para o convento. Não era raro que os conventos “disputassem” sobre quem fazia o doce mais gostoso.

Porém, no século XIX veio a Lei da Desarmortização, que determinava que os conventos existentes em Portugal deveriam fechar assim que a última freira viva morresse – o que, no caso do convento de Santa Clara em Guimarães, aconteceu em 1891. Quando isso aconteceu, as irmãs (que apesar de viverem no convento nunca se professaram freiras, e a tia delas já havia falecido há muito tempo) se viram forçadas a sair do enclausuramento e, literalmente, ganhar o mundo. Isso foi muito assustador para as duas, já que elas eram muito novas ainda e não sabiam trabalhar ou ganhar a vida. Os primeiros anos foram difíceis e elas, que chegaram a passar fome, resolveram se dedicar ao único ofício que sabiam fazer para se sustentar: fazer doces.

Nasceu aí a Casa Costinhas, que se orgulha de ser a única em Portugal a ter a receita original do toucinho do céu, exatamente como era feito pelas freiras de Santa Clara. A doçaria tem um ar antigo e é cheia das fotos dessas senhoras – hoje o negócio é tocado pelas mulheres descentes da família – mas isso é que dá um charme genuíno à história do local.

O toucinho do céu foi um dos doces criados pelas freiras do convento – diz-se que foram criados pelas freiras de Murça, mas os doces do convento em Guimarães são igualmente famosos. Como reza a tradição dos doces conventuais, é feito com muito açúcar, amêndoas e gemas de ovos – mas a curiosidade fica por conta do fato de levar também toucinho de porco no preparo, o que deu nome ao doce. A parte “do céu” vem do fato de ter sido preparado pelas freiras – era comum que elas nomeassem os doces com as palavras que faziam parte da sua rotina no convento: daí os nomes papo de anjo, barriga de freira, cabelo de anjo, e por aí vai.

Já as tortinhas de Guimarães enganam à primeira vista, porque apesar de se chamarem torta, estão mais para pastéis. Junto com o toucinho do céu, é uma das receitas mais tradicionais de Guimarães e é possível encontrá-la em todo lugar na cidade. Os ingredientes são parecidos: também leva uma quantidade enorme de ovos, açúcar, amêndoas, doce de gila e toucinho de porco, adicionados de bastante paciência, porque o preparo envolve vários períodos de repouso para a massa. A diferença é que, acredita-se, essa receita não nasceu nos conventos, mas certamente deve ter surgido em algum momento nas cozinhas de Guimarães em paralelo ao preparo do já famoso toucinho do céu. Será que as tias da Casa Costinhas estáo guardando segredo?

Minha opinião: acho que eu não sou muito fã de doces muito doces com avelãs, mas é meu paladar. O fato que é que na Casa Costinhas os doces eram servidos bem fresquinhos e com uma cara ótima! 🙂 Minha dica seria tomar com café!

Onde comer Toucinho do Céu e Tortas de Guimarães: na Casa Costinhas, Rua da Santa Maria 68, Guimarães. Fica bem no centrinho da cidade e perto do antigo convento de Santa Clara (as senhorinhas fundadoras da Casa Costinhas não queriam ficar longe do convento onde tinham crescido!).

Leia também: 4 dicas para alugar um carro no aeroporto de Porto

 

O que comer em Amarante: São Gonçalos, Lérias de Amarante, Papo de Anjo, Foguetes

Foi uma surpresa descobrir que Amarante tinha tanta tradição de doces – foi de longe o destino mais açucarado da nossa viagem! A razão disso é que ali perto havia também um convento de Santa Clara, que produzia muitos doces para servir de encomenda às famílias abastadas da região, e muitas das receitas conseguiram ultrapassar e sobreviver os muros dos conventos. E muito disso foi pelo mérito de uma senhorinha chamada Maria do Sacramento Oliveira, que também acompanhou os últimos anos das freiras que viviam no convento e, quando este fechou, transmitiu as receitas às suas filhas, que por sua vez fizeram todo o trabalho de perpetuar as receitas. Hoje há uma Confraria dos Doces Conventuais de Amarante que cuida para que essa doçura do mundo continue.

Mas deixe isso tudo para lá, se você não é muito de história. Amarante vale muito a pena a visita mesmo assim: é charmosa toda a vida, e fica bem à beira do rio. Nós ficamos apenas um dia por lá, portque tínhamos a agenda bem corrida porque tínhamos muitas coisas para pesquisar e nosso foco era ver os vinhos, mas eu recomendo mesmo esticar uns dois dias – nem que seja para experimentar os doces.

Doces de Amarante!

 

Minha dica: siga direto para a Confeitaria da Ponte, o melhor lugar para experimentar toda a riqueza da doçaria de Amarante num lugar só. Primeiro, porque eles tem tradição no preparo e uma enorme vitrine de dar água na boca: você pode pedir um doce com café, experimentar, curtir a vida, e depois voltar com calma para experimentar outro.

Outra vantagem: fica num lugar lindo, à beira do rio e com uma vista que também ajuda a compensar as calorias adquiridas.

Outro lugar, que continua produzindo doces há mais de 60 anos, é a Doçaria Mario, na Rua Cândido dos Reis 141. Vale a visita nem que seja para ter dois dedos de prosa: Mário é um doceiro de mais de 80 anos, que faz doces desde os 13, e continua na ativa.

E quanto aos doces:

Papo de anjo é seguramente um dos meus preferidos, mas eu descobri que há variações deles ao longo de Portugal, e que são bem diferentes do que eu estava acostumada a reconhecer como Papo de Anjo. Eu confesso que não me aprofundei nessas variações, e preferi ficar com a versão do papo de anjo de Amarante mesmo, que também nasceu no convento de Santa Clara, mas dessa vez no que fica em Amarante.

Da esquerda para a direita: São Gonçalos, Brisas do Tâmega e foguetes

 

Eu confesso que o meu problema em Amarante era o fato de ser muitos doces para muito pouco tempo na cidade, e eu não consegui experimentar todos. 🙁

As lérias de Amarante talvez sejam os doces mais diferentes na receita, porque não levam ovos. Já as Brisas do Tâmega são uma espécie de barquinhos de baunilha que são enchidos com o recheio de cremes de ovos, amêndoas açúcar e um pouquinho de vinho do porto, que vai na receita. Reza uma das lendas que li que, de todas as receitas das freiras Clarissas, essa foi a que chegou primeiro ao conhecimento público, porque as freiras tinham sido obrigadas a deixar seus conventos por causa das invasões francesas pela turma do Napoleão Bonaparte, e acabou sendo aprendida e difundida entre as famílias que moravam próximos aos rios.

Eu experimentei, porém, o foguete de Amarante e os são gonçalos. Basicamente quase todos os doces conventuais que saíam das mãos das freiras de Santa Clara tinham os mesmos ingredientes (era o que tinha disponível na época), sendo que o que diferenciava era o formato e o modo de preparar. Os foguetes de Amarante tem um canudo rígido que se assemelha a uma hóstia para acomodar os ovos moles com amêndoas no seu interior, e são cobertos com açúcar.

Já o doce São Gonçalo eu achei que ele me lembrava uma queijadinha, mas descobri que esta é a versão conventual do doce (leia-se, mais comportado!) preparado pelas freiras Clarissas em homenagem a santo Gonçalo, que era da região de Amarante.

E eu digo isso porque há a versão pagã, que tem um nome bem sugestivo: “Caralhinho de São Gonçalo” – e o formato, como vocês podem imaginar, de um “dito cujo”. O doce é em homenagem, literalmente, à “ferramenta” de São Gonçalo, que era o santo casamenteiro da época (assim como Santo Antônio), e comer o doce estava associado a arrumar um marido ou aumentar a fertilidade (ó céus!). De qualququer modo, não é difícil imaginar o porquê deste doce ter sido proibido por tanto tempo pelas autoridades eclesiásticas, nem entender o fato óbvio dele não ter saído das mãos das freiras. Mas de qualquer modo, é possível encontrá-lo hoje à venda (ainda que não exposto nas vitrines). Vale dizer que esse doce ganhou fama no mundo todo, especialmente nas revistas gays! 😜

Onde comer Lérias de Amarante, Papos de Anjo, São Gonçalos, Brisas do Tâmega e Foguetes: Confeitaria da Ponte (Rua 31 de Janeiro, 186 – bem pertinho da ponte de Amarante) ou na Doçaria Mário (Rua Cândido dos Reis 141, Amarante).

Leia também: Enólogo por um dia: como é a experiência de fazer um vinho verde em Amarante

 

Outros doces portugueses para experimentar também

Arroz doce: o arroz doce em Portugal é um dos doces mais tradicionais, e é preparado de tantas formas que a origem onde tudo começou é meio difusa até para os entendidos. Mas reza a lenda de que o hábito do consumo do arroz nasceu na época da presença moura na península ibérica, e foi continuando também em Portugal a comida está muito relacionada a significados, e arroz era o símbolo de fartura: era jogado na cabeça dos noivos, etc. Do casamento para os pratos foi um pulo, e cada região tem a sua forma peculiar de preparar. Se você gosta de arroz doce, tente experimentar o manjar dos reis em Melgaço, mas aproveite para arriscar-se em outros preparos também – dizem que no Minho é onde estão as receitas mais variadas.

 

Leite-Creme: Olhando para ele, a gente reconhece o creme-brulée francês ou o Crema Catalana, e é muito parecido mesmo: inclusive com aquele delicioso prazer de quebrar a casquinha de açúcar. Eu andei pesquisando a história da gastronomia de Portugal e a melhor explicação que eu achei é que, como no passado a história portuguesa, espanhola e francesa se misturou muito em batalhas, trocas e comércio, não se sabe exatamente onde o Creme Brulée/Crema Catalana/Leite-creme começou, mas provavelmente a origem é a mesma, e que como as receitas viajavam entre os países (mas sem estarem escritas em medidas) as variações foram nascendo aqui e ali, mas a base do doce é a mesma.

Mas a verdade é que para a gente não importa a nacionalidade do doce: português, francês ou espanhol, ele é uma delícia. Experimente!

 

Pão de Ló: o famoso pão de ló português tem várias versões ao longo da país, mas a receita mais famosa é a de Viana do Castelo, então fica a dica para quem vai para lá. Um bom lugar para começar é a pastelaria Manuel Natário, que tem 70 anos de casa e fica na Rua Manuel Espregueira, 37, em Viana do Castelo. O pão de ló é portuguesíssimo, mas o nome tem ares brasileiros: pão-de-ló Jorge Amado.

 

Qual foi a sobremesa portuguesa com certeza de que você mais gostou?

Agora é com você: meu sacrifício de consumir uma quantidade obscena de calorias valeu a pena: a Sara pode se parabenizar pela missão cumprida de me deixar agora morrendo de amores não por um, mas vários doces portugueses. ❤️

Estudar a história desses doces foi uma delícia, e mais gostoso ainda fazer isso in loco – embora eu confesso que eu não consegui muitas vezes comer tudo. Mas como felicidade e calorias precisam ser compartilhadas, eu abro aqui o espaço para sugestões, dicas e histórias de doces portugueses que vocês tenham e que não tenham sido mencionados aqui. Sua avó era portuguesa e fazia um doce maravilhoso? Você conheceu um cantinho escondido no Minho que tinha doces de comer rezando? Por favor, divida isso com o mundo!

Sou toda ouvidos e teclados! 🙂

 


Esta viagem pelo norte de Portugal foi feita junto com a blogueira Sara Riobom do blog Portoalities e teve como objetivo mapear a Rota do Vinho Verde. Por isso, algumas das vinícolas, restaurantes e hotéis foram resultado de uma parceria que fizemos, mas todos os doces aqui mencionados (salvo as sobremesas do restaurante Arcoense e Adega do Sossego) foram pagos do nosso bolso. Logo, todas as opiniões e calorias contidas neste post são genuínas da própria jornalista que vos fala! 

Comments

2 COMENTÁRIOS

  1. Nossa, que sonho essa viagem hahaha Amo doces portugueses, acho que o meu preferido é o ovos moles de aveiro (não comi em aveiro mesmo, mas ta valendo) mas tudo que tem ovos moles, gemas, aiaiai são amor!

    • Jéssica, tô que nem você! Comi também ovos moles de Aveiro sem ser em Aveiro! hehe Mas foram uma delícia também!
      Eu gostei muito dos papos de anjo, que também tem recheio de ovos moles, uma delícia! Já provou?

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