Portugal tem uma relação de carinho especial com a cidade de Guimarães por motivos de história, identidade nacional e amor que pega pelo estômago.

Primeiro, porque foi nela que nasceu D. Afonso Henriques, um conde e guerreiro que depois viria a se tornar o primeiro rei de Portugal. Segundo, porque foram exatamente os castelos e a igreja onde ele foi batizado que simbolizariam essa identidade do país, ainda na Idade Média. E por fim, porque foi em Guimarães que havia o Convento de Santa Clara, um dos responsáveis pelos doces conventuais mais famosos e secretos do país.

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Ou seja, três motivos mais do que suficientes para visitar a cidade, e ainda fazer um combinado Guimarães e Braga em um dia só, partindo de um bate e volta a partir do Porto.

Recomendo a visita, mesmo. A cidade é uma gracinha. 😍

Para quem tiver tempo, vale a pena esticar ao menos um pernoite em Guimarães para explorar com calma e merecidamente a vida da cidade (em especial os excelentes restaurantes) e montar base para visitar Braga também com calma. Nesse ponto, acho que Guimarães é mais simpático para pernoitar, até pela vida noturna de barzinhos que rola no centro histórico – vou falar disso em outro post.

Mas para quem tem pressa, um dia combinando as duas cidades já dá para ter um delicioso gostinho de Portugal. Minha dica: como são duas cidades com uma fortíssima herança histórica, vale a pena fazer esse passeio especificamente com um guia. E eu fiz a parte do tour por Guimarães com a Sara, uma guia turística do Porto e que também escreve para um blog de viagens, o Portoalities. Eu já tinha feito um tour com ela pelo Porto, e desde então viramos amigas. Juntas, nós montamos nosso projeto de rota pelo Vinho Verde e ela se ofereceu para mostrar para mim como é o tour dela por Guimarães.

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Foi uma experiência ótima – e conto aqui os detalhes do que o passeio incluiu.

O que está incluso no tour entre Guimarães e Braga:

Palácio de Guimarães: onde tudo começou

 

O ponto de partida do passeio é o local onde Portugal também começou: aos pés da estátua de D. Afonso Henriques, o Conquistador. E é também ali que a Sara nos dá uma maravilhosa aula de história sobre as batalhas que o D. Afonso se meteu (que foi com ninguém menos que a sua própria mãe) e que resultou na libertação do então chamado Condado Portucalense, que virou Portugal.

Quem tiver interesse em saber sobre a história desse gajo, uma dica é ver este post dos 360 meridianos sobre a vida dele. A Luíza, uma das blogueiras do trio, tem um jeito bem interessante de contar essas histórias – ela inclui até teorias históricas da conspiração sobre se o tal Afonso era filho da mãe dele mesmo ou não! 🙂

Dali, seguimos para o Castelo de Guimarães, que fica imponente ao topo de uma colina ali em cima – e onde vemos o que ficou dessa história ao vivo e a cores. Essa aparência austera é de propósito: ele foi construído pela Condessa de Mumadona e uma das suas principais funções era proteger a região dos ataques dos sarracenos que aconteciam no século X. Quase nenhuma janela, muros impenetráveis e torres pontudas: não tem como ser mais Idade Média do que isso.

Anos depois, com conquista de D. Afonso Henriques, o castelo se tornaria residência do rei.

É possível entrar no castelo, mas eu não entrei: estava chovendo bastante no dia e, segundo a Sara, não havia muita coisa dentro dele para se ver – e a vista em si não era um “ooohhh” que valesse o tempo (já curtíssimo) que tínhamos. Mas eu acho que é nesse ponto que valeu ter uma guia ao lado: íamos contornando o castelo e ela ia trazendo a vida as batalhas que acontecimentos que houveram por ali. O lugar fica muito mais interessante quando se tem uma história por trás.

E o melhor exemplo disso é a Igreja de São Miguel, que fica logo atrás do castelo. Ela é pequenininha, igualmente austera e cheia dos ares medievais – tão discreta que os desavisados jamais imaginariam que ela tem uma relação especial e única com o nascimento de Portugal como país. Reza a lenda de que o D. Afonso Henriques foi batizado aqui.

É possível entrar nesta igrejinha acompanhado do guia, que vai explicando as inscrições na pia batismal e o chão da capela, repleto de inscrições de antigos nobres guerreiros da época. Como muito dos patrimônios medievais da Europa, esse cantinho ficou negligenciado por anos, mas agora Guimarães vem se dedicando aos trabalhos de restauração para recuperar esta igreja, que é um forte símbolo da identidade de Portugal.

A visita inclui também o Paço dos Duques de Bragança, uma construção imponente ali do lado. Construído por um dos Duques mais poderosos de Portugal no século XV, foi a residência dele e da sua esposa, a Duquesa Constança de Noronha, que ao enviuvar passou a se dedicar a uma vida religiosa e a cuidar dos pobres da região – o palácio chegou a servir de abrigo permanente para os mais necessitados.  Depois, passou por vários anos de abandono – e de pilhagem, em que a população ao redor começou a usar as pedras do Palácio para construir suas casas. Foi recuperado novamente pelo Salazar, que transformou em palácio Presidêncial e hoje abriga um museu.

O tour também inclui ingressos e a entrada do guia com você, para mostrar o acervo.

Dali, seguimos para o centro histórico de Guimarães. É uma curta caminhada, bem delicinha, parando para admirar os pequenos inúmeros detalhes que Guimarães tem para mostrar.

Não são poucos – a cidade é Patrimônio Mundial da UNESCO e foi Capital Européia da Cultura em 2012. 🙂

Curiosidades de Guimarães

 

Em tempo: para mim, a grande vantagem de ter um guia local é conhecer o gostinho da vida como ela é, dos segredos da poppulação que morava lá, e que não é tão óbvia nos livros, guias, sites.

Por exemplo, uma das curiosidades que mais gostei foi essas caixas de ferro em algumas partes da cidade, que a Sara me mostrou:

A função delas é vital, simples e engenhosa , e foi criada pelos habitantes do Porto no século XIX: era um alarme anti-incêndio.

Imagine o seguinte: no século XIX, com casas antigas e muito uso de fornos a lenha e lampiões, o risco de incêndio sempre foi uma possibilidade. Mas não havia celulares, telefones ou internet, de modo que até a informação de que um incêndio havia começado chegasse até o corpo de bombeiros da época, tudo já havia virado cinzas.

Daí a idéia genial das caixas de ferro: são várias espalhadas pela cidade, e elas contam com um painel que mostra uma lista de todos os bairros, com um número para cada um. Exemplo: Capuchos é o numero 4, Carmo é número 5, e daí em diante.

Daí, quando um incêndio acontecia, as pessoas corriam às caixas de ferro mais próximas, abriam a caixa e puxavam a manivela o número de vezes correspondente ao bairro em que estavam. Isso fazia com que um sino tocasse, e toda a cidade já sabia onde era o local do incêndio pelo número de badaladas, e corriam àquela freguesia levando baldes de água. Não é super interessante?

A Sara conta isso com mais detalhes – e com o lindo sotaque português dela – aqui neste post. Ela dá também o mapa da mina de onde encontrar essas caixas no Porto.

Veja também: 5 coisas que Londres e Porto tem em comum

Não sei vocês, mas eu acho o máximo descobrir essas soluções locais, esse senso de comunidade tão português, tão cuidadoso com os seus!

E outra curiosidade que está inclusa no tour é a Casa Costinhas, uma das docerias mais famosas da região e a que se diz que produz a receita secreta dos toucinhos do céu, igual como eram a receita original do Convento de Santa Clara. Tem uma história bem legal sobre a Casa Costinhas, que também ilustra muito sobre como nasceram os doces conventuais portugueses.

Eu diria que a Casa Costinhas é uma visita quase obrigatória em Guimarães – com o bônus que de que ela fica bem no caminho até o centrinho hostórico. E o tour da Sara inclui uma paradinha nela para um café e um toucinho (incluídos no preço do tour!). 😍

 

O centro histórico de Guimarães

 

Para quem já ganhou títulos de patrimônio Mundial da Unesco e Capital Européia da Cultura, o centrinho histórico de Guimarães tem uma aura bem aconchegante de quem sabe ser anfitrião sem deixar a fama subir a cabeça. Isso explica, talvez, porque ele é tão encantador.

Assim como no castelo de Guimarães, o centrinho é cheio das histórias escondidas. Uma delas está na praça de São Tiago, em que reza a lenda de que uma estátua da Virgem Maria trazida pelo apóstolo Tiago foi colocada na praça. Muitos dos traços medievais da praça ainda estão preservados – mas hoje, ao invés de buscar a benção de santas, a praça se enche mesmo é de gente procurando mesinhas e cadeiras para sentar, beber, comer e se divertir. E Guimarães, como boa anfitriã que é, sabe como ninguém como receber.

E num país com uma tradição religiosa tão forte, é de se esperar que milagres também façam parte do folclore da cidade. Um deles é sobre uma oliveira que estava plantada ali num largo do centro da cidade por anos, bem em frente à Igreja de Santa Maria. A árvore estava seca, mas voltou a dar folhas e frutos de novo lá por 1342 e, como tudo que acontecia na Idade Média que não tivesse uma explicação imediata, o povo local decidiu que era um milagre. Colocaram logo uma cruz na árvore e, imediatamente, a praça começou a se chamar Largo da Oliveira. Sobrou para a santa, que passou a se chamar Nossa Senhora da Oliveira, e para a igreja, que virou Igreja da Oliveira. Mas como milagres não duram para sempre, a árvore foi removida em 1870 (contra a vontade do povo) e uma nova oliveira voltou ao lugar em 1985.

Vale a pena passear pelos arredores da oliveira, mas também dar uma voltinha pelos cantos da praça – eles tem construções bem antigas, como esses arcos dos Antigos Paços do Concelho, onde funcionava o governo da cidade no século XIV.

E se a gente repara que Guimarães está crescendo e está super bem cuidada, como quem se arruma para receber bem os visitantes, isso nem sempre foi assim. Outra história escondida – essa menos prazeirosa – é sobre a Rua de Santa Maria. Hoje é uma fofíssima rua que liga o Mosteiro com o Castelo, mas na época da Idade Média era um suja e escura, e era costume das casas despejar baldes com seus “conteúdos” (imagine que na época não havia esgotos) pela janela, para azar de quem estivesse andando ali debaixo na hora. 😖💩

 Mas isso é passado – ou, pelo menos, o lance dos baldes. A arquitetura medieval da cidade passou por uma série de repaginações que permitiram que Guimarães crescesse e trouxesse hotéis boutique confortáveis, avenidas largas, estruturas de restaurantes, etc. Mas os espaços e formas que ainda contam muito sobre a vida que acontecia ali foram conservados – e estar com um guia ajuda a trazer isso à tona. Um exemplo é o Largo do Toural, que hoje é o centro da cidade. Todo limpinho, amplo e bonitão, com chafariz e obra de arte, nem de longe lembra o centro da cidade que ele foi no passado: no século XVII era a praça principal que ficava fora dos muros da cidade e que concentrava as feiras de gado e as touradas – daí o nome. 🐂

Talvez por essa herança escondida que a beleza de Guimarães exija em alguns momentos olhos mais treinados. Exatamente para ver além do que está ali.

“Vou te levar no lugar que, para mim, é o mais bonito de Guimarães”, disse a Sara. “Nenhum dos meus visitantes dos meus tours gostam. Mas eu acho lindo”.

Eu fui. E o lugar que ela me mostrou era esse: a zona de couros da cidade.

Aqui, a sensibilidade para a beleza deve ser sensorial, e não só restrita aos olhos.

“A principal indústria de Guimarães, por séculos, foi o couro. E era aqui que, até o século XIX, trabalhavam os curtidores.” ela explicava. Imagine você que aqui o trabalho era pesado e todo manual, feito em condições super precárias. Eram homens que ficavam mergulhados o dia inteiro em água e várias químicas, removendo os pêlos do couro à mão, deixando secar por meses em tanques até que pudessem receber o curtume. Eles trabalhavam descalços, por horas seguidas, debaixo de sol ou de chuva.
Era um trabalho para o(a)s fortes. Fortes em tudo. E isso, talvez, seja o traço mais português de todos: o respeito e homenagem ao trabalho e suor dos seus antepassados.

É esta a beleza que é preciso ter olhos para ver. Obrigada por me levar aqui, Sara! 🙂

Em tempo: há alguns projetos de recuperação desta área, que em breve deve dar lugar para restaurantes e bares (a localização é nobre, afinal). Porém, há uma iniciativa de incluir também uma mostra artística que explique a herança dos curtidores de couro, com fotografias e imagens mostrando como era o trabalho séculos atrás. Ou seja, mais viagens ao passado em breve!

 

Onde comer em Guimarães

 

O tour de 8 horas inclui uma parada para almoço, que pode ser tanto em Guimarães mesmo ou direto em Braga – isso fica à escolha do cliente. A Sara tem algumas boas opções de restaurante na manga para sugerir, que variam para agradar quem quiser algo barato, ou topar uma refeição mais high-end.

Mas já que você está aqui, me permite dar minhas três dicas? 🙂

 

Onde comer no centro de Guimarães (não precisa de carro)

Para quem quiser comer ali no centrinho, uma dica é o Histórico (Rua de Valdonas, 4, entre o Largo da Oliveira e o Largo Toural). Eu confesso que não fui nele, mas ele já ganhou prêmios pela cidade (um dos premios foi o de fazer o melhor pudim Abade de Priscos de Portugal) e foi uma calorosa recomendação do dono do nosso hotel (que, aliás, oferecia um café da manhã delicioso, de modo que ganhou todo o meu respeito em termos de comida). É um dos mais renomados da cidade (leia-se: com preços à altura). Tenho só uma observação: esteja ciente de que ele pode encher muito em períodos de alta, e restaurante lotado nunca é a melhor das experiências.

Onde comer nos arredores de Guimarães (precisa de carro)

O Restaurante São Gião (Avenida Comendador Joaquim de Almeida Freitas, 56 – Moreira de Cônegos) fica em uma cidade vizinha e precisa de reserva, mas a estrela Michelin dele vale todos os centavos de euros de combustível para ir até lá. O chef é espetacular, e adora puxar uma boa conversa também – foi uma das melhores experiências que tivemos na viagem.

Eis que eu comi (porque quem divide dica de comida amigo é):

  • Ovos escangalhados com raspas de fois grais: o prato já me ganharia pelo nome, porque poucas palavras na língua portuguesa dizem tanto quanto “escangalhado”. Mais do que soar divertido aos ouvidos, cai em no estômago. A porção é bem portuguesa: generosa, tipo da entrada que já me deixou satisfeita. Recomendo de lágrimas nos olhos de saudade.
  • Canilhas: Por favor, experimente a sobremesa, nunca te pedi nada! 😉 É um canilho delicioso de creme, criação da casa, de uma delicadeza ímpar de apresentação e um sabor que parece explodir na boca. Fantástico.

Onde comer em Braga (precisa de carro)

Não tenho outra forma de dizer isso, então perdoem-me o clichê: mas o Arcoense está entre os 5 melhores restaurantes que eu já comi na vida (Rua Engenheiro. José Justino de Amorim 96, Braga).

É mais sofisticado, com preços idem. Minha dica seria comer o Cabrito pingado (que é o prato mais pedido da casa, e com razão), mas precisa ser pedido com antecedência, então se vocês toparem a experiência, podem combinar uma parada lá com a Sara que ela faz a reserva e ajeita tudo bonitinho! 🙂

O tour em Braga

A parte da tarde do tour é dedicada à Braga, e inclui uma paradinha na catedral de mesmo nome, a mais importante da cidade. Eu confesso que não fiz essa parte porque no dia em que estávamos lá chovia cântaros (e eu preferi visitar o Mosteiro de Tibães, ali pertinho), mas é um dos pontos altos da visita e muito importante para quem é católico.

Aliás, fica a dica: o Mosteiro de Tibães em Braga também é lindo de morrer, vale a visita! Infelizmente não dá para ele e a Catedral de Braga na metade do dia, mas converse com a Sara para ver suas preferências, ela é flexível na hora de montar os tours!

 

Bônus: há um lugar-surpresa especial incluído nos tours para brasileiros, preparado com carinho pela Sara. Fica a dica!

 

Quanto custa o tour completo?

Vamos falar sobre preços, né? Como a Sara faz tours personalizados, o valor acaba variando muito, exatamente porque leva em consideração as preferências, ritmo e gostos dos clientes. Mas para você ter uma idéia:

  • Um tour para um casal apenas costuma sair um pouco mais caro, porque são apenas duas pessoas para pagar o valor do tour e do transporte. Nesse caso, os valores ficam em torno de 140 euros por pessoa (ainda assim, acho em conta – vi outros tours em torno de 200, 300 euros para um casal).
  • À medida em que há mais pessoas no tour, o valor vai sendo “rateado” por todos – ou seja, é ideal para quem viaja com família ou amigos. Dependendo do grupo o valor chega a 80 euros por pessoa (especialmente se for possível fechar um carro, uma van ou um microônibus, por exemplo).

O tour inclui 8 horas de passeio, visitas e acompanhamento da guia o tempo todo para Guimarães e Braga, ingressos para os museus, transporte em minivan ou ônibus de e para o hotel (em Porto) e umas surpresinhas. 🙂

Você pode combinar com a Sara direto deste link. Pode, inclusive, dizer que chegou até ela pelo Dondeando por Aí. Eu não ganho comissão nenhuma por indicar isso, mas é que em Portugal indicação de amigo vira logo da casa: logo, se ela souber que você chegou a ela por mim, tenha certeza de que ela vai atendê-los com ainda mais carinho! 🙂

Esta jornalista fez este tour a convite da Sara como parte do projeto Rota do Vinho Verde. As visitas aos restaurantes Arcoense e São Gião também foram resultados de uma parceria, mas só chegamos até eles para propor a parceria por via de recomendação de produtores de vinho reconhecidos que já frequentavam este lugar. A recomendação desses serviços é de coração.

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