Dia dos Mortos México
Dia dos Mortos México

Passar o Dia dos Mortos no México é uma experiência especialmente interessante. Para começar, porque mexe com todos os nossos paradigmas: afinal, no México a morte é divertida, engraçada, festiva, onde por trás de cada caveira brincalhona tem um significado. E que, quando a gente vai procurando entender a visão deles, passa a ver a relação com a Morte (e a festa) de uma outra forma.

Então, para quem sempre teve sonho, curiosidade, vontade ou sei lá o que de conhecer como funciona o Dia de Mortos (ou Día de Muertos) aqui, seguem algumas informações básicas e curiosidades de como a coisa acontece.

Serão três posts nesta série: este explica e contextualiza as coisas. Os outros dois contam como é (e dão dicas de como passar) o Día de Muertos aqui no México, em duas cidades: o segundo (este aqui) em Playa del Carmen, na Riviera Maya (mais especificamente, no Parque Xcaret), uma forma mais turística de conhecer o festival (porém não menos informativa). O terceiro, aqui,  conta como é o Día de Muertos em Oaxaca,  no interior do país, onde acontecem as festividades mais tradicionais e onde é possível ver bem de perto – e inclusive, participar – das comemorações típicas da raízes mexicanas.

Curtiu? Então vamos lá – como diria Jack, por partes!

Buenas Mortes a todos!

Sorria: é dia de Festa!

Muito ao contrário do que nós, brasileiros, estamos acostumados com Finados, aqui no México a festa do Día de Muertos é extremamente festiva, uma das maiores comemorações do país, que começa no dia 31 de Outubro e termina, em tese, na noite do dia 2 de Novembro, embora pode se esticar até meados do dia 3 e 4.

Porque? Porque para os mexicanos, a morte é uma parte da vida, e não um momento de tristeza. Acredita-se que, na morte, as almas vão para um lugar melhor – e por isso, não há motivo para chorar. Só que, nos Dia dos Mortos, eles acreditam que é quando as almas têm “permissão” para voltar ao mundo dos vivos e reencontrar seus entes queridos. Então, é um motivo de festa para quem está do lado de cá, passar um dia e uma noite celebrando esse reencontro, e uma forma de mostrar seu carinho.

São várias os sentimentos que traduzem essa data: um sentimento que de a vida do morto é importante demais, e que a morte verdadeira só acontece quando se esquece sua memória…

… e uma mostrar todo um amor que sempre existe – e que deve ser mostrado com alegria. Sempre.

Cada morto no seu quadr… ops, no seu dia.

A tradição diz que as comemorações acontecem da seguinte forma:

No dia 30 de outubro começam os rituais, que incluem acender uma vela preta em seu altar, que simboliza todas as almas.

Do meio-dia de 31 de outubro ao meio-dia de 01 de novembro: celebra-se a chegada dos “angelitos”, as almas das crianças que se foram cedo. Neste dia, as velas dos altares são brancas.

Do meio dia de 01 de Novembro ao meio-dia de 02 de novembro: celebra-se a chegada das almas dos jovens e adultos. Nesse dia, as velas acesas são todas coloridas, em homenagem a todos.

Na verdade, essas são as premissas tradicionais, mas pelo que vimos na prática, as comemorações são todas iguais para todos, e alguns festejos chegam até o dia 4. Mas, se for participar, programe-se para as noites do dia 31 e dia 1: são quando acontecem as maiores festividades!

Curiosidades e Tradições antigas

 1) Antigamente, nas pequenas cidades do México, as famílias enterravam seus mortos debaixo de suas próprias casas. Era uma forma de mostrar que o morto continuava a fazer parte da família, mesmo que sua alma estivesse em um lugar melhor. Então, no Dia dos Mortos, as grandes ceias eram feitas em casa – afinal, entendia-se que a família já estava toda “reunida” no mesmo lugar. Com o tempo e como não é mais possível enterrar os mortos em sua própria casa, as famílias seguem para fazer sua ceia de Dia dos Mortos no cemitério e ali fazer sua “reunião familiar”.

2)Em algumas áreas, existe um ritual em que a família segue para o cemitério, retira o morto da cova (quando são só os ossos) e eles mesmo limpam-nos.

Confesso que eu não consegui esconder uma careta quando soube disso. Ao que Tania, a jovem mexicana que me acompanhava, continuou a explicar.

“Limpar os ossos do seu próprio ente querido é a demonstração máxima de que você o ama, se preocupa com ele e que ainda zela por ele. Mas, após, limpá-lo, devolvemos os ossos ao túmulo, como uma forma de dizer que: ‘Nós te amamos, mas entendemos que devemos deixá-lo ir'”.

Falei para ela que jamais podia imaginar uma família brasileira fazendo o mesmo, pois em nossa cultura a relação com a morte é completamente diferente. E, vale dizer, um tanto temerosa, a ponto da gente, muitas vezesm evitar maiores contatos assim, digamos, “post mortem”.

Nâo se vê uma expressão de tristeza: ao contrário, o cemitério é tomado por pessoas de profundo respeito.

E ao que ela me respondeu: “Sério? Poxa, é uma oportunidade que vocês têm de se despedir dele, e de mostrar o carinho que têm pela pessoa”.

E nessas horas a gente entende que todos os nossos paradigmas de vida (e de morte) é tudo uma questão de cultura, de cabeça, e de forma de pensar. E que viagem, nesses casos, abre muito os nossos horizontes e a forma com que pensamos a vida. A de lá e a de cá.

3) O Dia de Mortos no México tem um quê de carnaval e de Natal ao mesmo tempo. Natal no que tange à preparação dos rituais – que começam uma semana antes, com a colheita das flores chamadas Cempasuchil, de cor laranja vivo. São as tradicionais da festa porque florescem apenas nesta época do ano (e também porque são conhecidas como ” a Flor de 400 pétalas”, pois diz-se que representa o sol e seus raios de luz, que devem iluminar os mortos. Eram também a típica flor do luto dos maias). A ceia é preparada com antecedência. A semelhança com carnaval também se vê nas fantasias, em especial usadas em Oaxaca, onde circulam bloquinhos pela cidade, num clima carnavalesco. Mas sem a parte da sacanagem tão comum no Brasil – afinal, é Dia dos Mortos, pô!

4) É costume levar, no Dia dos Mortos, todas as comidas que o morto gostava em vida; afinal, você está recebendo sua visita e como bom anfitrião, deve agradá-lo. Geralmente, as oferendas servidas são o “Pan de Muerto” (um pão duro, mas gostoso e que, na região de Oaxaca, é típico que tenha a imagem de uma pessoa, homem ou mulher, adornando-o, simbolizando o morto), um chocolate em formato de caveira (chocolates são típicos da região de Oaxaca, já que era bebida tradicional das civilizações astecas), e Mezcal, uma bebida alcóolica mais forte que tequila – e ótima para espantar o frio durante a vigília de noite no cemitério.

Boa para levantar defunto também. Por experiência própria e com todo o respeito.

É também comum levar caveirinhas feitas de açúcar, decoradas com glacê e algumas vezes com o nome do morto escrito, como uma homenagem a ele. Tais caveirinhas de açúcar são tão típicas no México que é muito comum realizarem atividades com elas em escolhas, clubes e reuniões de amigos, em que uma pessoa presenteia um amigo com uma caveira com seu próprio nome escrito (o do amigo, no caso), como uma forma de dizer: “ei, estou te presenteando com isto. Para você saber que esta caveira é você e, portanto, você não precisa ter medo da morte”.

Frutas frescas, água e demais doces complementam a ceia fúnebre.

E porque tudo isso? Porque as almas atravessam um longo caminho, vindas do outro mundo, só para visitar-nos aqui nestes dias. Então, todas estas comidas são como oferendas para alimentá-las e agradá-las. Outra razão também é porque, como elas vêm de um mundo melhor, toda a comida oferecida aqui deve ser de qualidade, como um agrado.

Velas também são importantes, para iluminar o caminho das almas 

E com vocês, Katrina! Mas podem chamá-la de Doña Muerte, por favor!

Em todos os lugares, a imagem de uma senhora caveira, toda guapa, representada em quadros, esculturas, pinturas de rosto, fantasias e etc. Às vezes vestida de noiva, às vezes vestida de nobre, mas sempre de uma hermosura só.

Segundo a tradição, ela se chama Katrina e representa a Morte. E qualquer semelhança com o furacão de New Orleans é apenas coincidência.

Vez por outra, é representada acompanhada, num love só, por Katrin, seu esposo.

E o que significa? “Es una burla”, explica-me Efraín, do Hostel Cielo Rojo, em Oaxaca. Ou seja, uma piada bem mexicana: uma forma de mostrar, com humor, de que a morte chega para todos: ricos, pobres, exuberantes, humildes, apaixonadas, descrentes…. E que depois da morte, todos os gatos são pardos. E todo mundo vira pó – sem exceção.

Lugar de Ceia é no Cemitério

Pense num Natal em família: todo enfeitado, com muitos enfeites, pessoal acendendo vela, candelabro, luzinhas, flores, adornos, comida (muita comida), família reunida…

Agora pense tudo isso num cemitério. Dia dos Mortos é tipo isso.

A experiência, à princípio, soa meio estranha: visitar cemitério de noite. Mas a estranheza some logo no início: até porque rola um certo engarrafamento na entrada nos cemitérios.

E chegando, o que se vê é uma profusão de velas. Em todos os túmulos, corredores… Chamas pequenas que, mais que iluminar o caminho, dão vida ao cemitério. Literalmente.

Todos os túmulos são enfeitados. Com comida, adornos, velas, fotos – tudo o que o morto gostava em vida, mostrado de forma respeitosa e, muitas vezes, bem humorada. Mas bonita. Amorosa. Sempre.


Soubemos depois que rola um concurso de túmulo mais enfeitado. Mas o concurso é algo simbólico, porque não há competição de verdade: o que existe é um profundo desejo de cada família de fazer uma homenagem linda, à sua maneira, ao seu ente querido. Da melhor forma que eles podem.

Embora eu, confesso, já estava imaginando como seria a conversa das almas por ali. Do tipo:”Viu? Meu túmulo é mais bonito que o seu! Rá, rá!”. 

Ok, humor negro. Voltemos.

 E quase todos os túmulos, com famílias ao lado. Toda reunida. Crianças, bebês(zinhos), senhoras idosas.

E o mais bacana, nenhum de mau humor, ou triste, ou nada. O que se via era um enorme respeito em estar vivendo aquele momento.

Pelo contrário, havia até muita brincadeira. Caras pintadas não faltavam. Piadas, música, risos.

Muito em parte embalado pelo Mezcal, bebida alcóolica que cada família levava para a data. Dá até para sair bêbado do cemitério, de tanta bebida que te oferecem, de túmulo em túmulo.

Crianças pequenas eram envolvidas na arrumação dos túmulos. Algumas eram pintadas, inclusive. E com tantos desenhos de caveiras e um cemitério ao redor, não havia nenhuma com um pingo de medo. Nadica.

Havia, na verdade, uma enorme alegria e responsabilidade em fazer parte de um momento tão importante.

No meio de tudo isso, nós, turistíssimos, com nossas câmeras em punho e mega deslocados. Mas só no início. Mezcal era oferecido o tempo todo pelas famílias presentes – que, inclusive, riam da nossa reação ao provar a bebida. Mas com muito bom humor.

O que mais me surpreendeu: chegávamos com respeito e certo receio de fotografar momentos tão íntimos. Que nada! Não houve nenhuma família que não ficasse feliz e orgulhosa que fotografássemos seus filhos pequenos, seus túmulos, nada!

Sorrisos, sorrisos. E música. E mariachis.

E quesadillas. Sendo feitas na hora – isso mesmo – no cemitério. E tava boa, tá?

Moral da história: saí da minha primeira visita ao cemitério à noite sorrindo. De orelha a orelha. Sem perceber. Leve que só.

Porque, uma visita dessa não tem nada de sombria. Pelo contrário. É cor pura.

Mesmo em silêncio, é festiva.

Parece fria por causa da noite, mas é calorosa.

E, mesmo eu a fazendo de forma solitária, em nenhum momento me senti só.

Pois é, galera. O Dia é dos Mortos. Mas é cheio de vida.

 A viagem para a Riviera Maya e Oaxaca, no México, feita por esta blogueira e jornalista, contou com a parceria e colaboração do Escritório de Turismo da Riviera Maya, do Xcaret Park, do Hostel Cielo Rojo (Oaxaca) e do Hostelbookers. Agradecemos a todos pela ajuda e pelas importantes informações – documentar um festival como esse não seria tão enriquecedor sem a ajuda de vocês.

Comments

27 COMENTÁRIOS

  1. ‘Nós te amamos, mas entendemos que devemos deixá-lo ir’” … lindo, lindo!
    Não sei nem dizer de que gostei mais, se do texto ou das fotos. Só sei que me contagiou e que também quero ter a oportunidade de vivenciar esse dia dos mortos tão cheio de respeito, de beleza e de festa!

  2. Uma aula de cultura, história… e de vida. Além das fotos, que estão lindas. O fato de limparem os ossos me surpreendeu bastante, a nossa visão é totalmente diferente!
    Obrigada por compartilhar essa experiência tão divertida e bonita (antes do seu post, eu diria macabra) com a gente! um beijo!

  3. Cla,
    Que post maravilhoso! Realmente, o México mexeu, ficou mais do que visível!
    Eu sou super medrosa para essas coisas, não acho graça em caveiras, gostaria muito de ter uma cultura mais desapegada. Mas foi muito interessante ler isso tudo e ver as fotos que estão lindas!
    Amei! E imagino o que vem mais por aí!
    Bisous

  4. O México é mesmo muito intrigante, cheio de surpresas.
    Muito interessante a festa, fotos lindas, uma luz incrível, adorei!!

    Por acaso essa flor é bastante comum também no Brasil, principalmente no interior e nessa coloração laranja vivo.
    Popularmente conhecida como ” cravo de defunto”…
    Eu conheço desde pequena sempre achei linda pela cor e sempre detestei o cheiro fortíssimo, talvez por ser associada aos mortos,rs Engraçado como as coisas são conectadas sem que a gente faça a menor idéia disso.
    Bj!

  5. Que legal! Boa oportunidade pra conhecer um pouco da cultura de outros países, ainda mais com festa, né!
    As fotos ficaram ótimas.
    Esperando os próximos posts.
    Beijos

  6. amei seu post, eu esstava queredo mesmo ir neste dia , gostaria de umas dicas suas, minha TCC de Gastronomia vai ser sobre a Frida Kahlo e suas receitas e dia dos mortos. agradeceria se vc pudesse me dar dicas por e-mail.
    grata
    katia chan

    • Katia, fico feliz que tenha gostado, e espero poder ajudá-la sobre o dia dos Mortos – porque não sou uma grande especialista em Frida Kahlo! ;p Mas claro, estou à disposição! O e-mail de contato do blog é o contato arroba dondeandoporai ponto com ponto br!

  7. Moça, só estou passando aqui para dizer que esbarrei no seu blog por acaso e amei o conteúdo! Estou fazendo uma pesquisa sobre dia dos mortos para um projeto pessoal, entao muito obrigada por compartilhar texto e fotos, tudo excelente! Um abraço, Bianca

  8. Muito, muito legal! Mudamos pro México em dez/13. Estou encantada com esse país tão rico em cultura, em história! Estou desbravando todo país e tamanho é meu amor que fiz um blog também pra compartilhar nossas descobertas. Quando você voltar pra cá não deixe de conhecer Guanajuato, San Miguel de Allende, Huasteca Potosina… Tanto lugares…rs E não vejo a hora de participar das comemorações do Dia dos Mortos! 🙂 Sucesso pra você, ótimo blog! Mel.

  9. Acho bacana essa cultura de celebração da morte (partindo do princípio que o depois é melhor do que o agora, claro), mas sinceramente não vejo nada de bonito ou legal em mexer nos túmulos. Não por uma questão de respeito (até porque o seu post explicou bem detalhadinho que é justamente por uma questão de respeito esse limpar os ossos), mas por uma questão de higiene e saúde pública! Sejamos realistas, primeiro cemitério não é um lugar mega limpo; Segundo, infecção cadavérica é uma realidade! Tem gente que morre disso meu povo! Já imaginou, comer um burrito preparado pela mão que acabou de pegar nos ossinhos do defunto? Aff!

    • Oi, Helena! Obrigada pelo seu comentário!!! 🙂
      Então… Quando eu fui na celebração (em 3 cemitérios diferentes, onde tirei essas fotos!) não havia ninguém abrindo os túmulos, era só a “festa” (respeitosa, neste sentido) mesmo. Muitas das comidas eram trazidas de casa (como a minha) e colocadas pro cima das lápides (e sim, confesso, me ofereceram Mezcal, a bebida alcóolica deles… e eu aceitei porque, bem, senão ia ser uma desfeita e porque quem está na chuva é para se molhar…).

      Eu concordo com você, cemitério não é o local mais limpo do mundo, mas confesso que foi o tipo do festejo que eu tinha que abstrair se quisesse viver a experiência. E bem, tô aqui até hoje – felizmente!

      Não vi ninguém limpando os ossos. Mas segundo a tradição que a Tania, a minha guia, me explicou, isso é uma tardição antiga e acontece nas regiões mais remotas e bem mais, digamos, tradicionais e mais conectadas com as tradições antigas. Pelo que entendi, essa “limpeza dos ossos” era um ritual (e imagino que não deva ter comida envolvida, porque o lance da comida era meio a parte “festeira”, então talvez não rolasse o tal burrito mesmo), mas né? Acho que você colocou um ponto importante… Agora fiquei curiosa em pensar nesse ponto! Não tenho mais o contato dela para perguntar isso… mas vou dar uma pesquisada, agora!

    • Luciano, que bom que gostou do post – obrigada pela visita! Vá sim para o México, e tente passar essa época em Oaxaca, uma lindeza de cidade. Digo sem nenhum pudor que foi a experiência de viagem mais enriquecedora da minha vida! 🙂

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