Eu preciso escrever sobre um assunto que está me incomodando há algum tempo. 😐

É o seguinte: eu tenho uma série de posts sobre o Egito, de quando viajei para lá “sozinha” (eu fui com um grupo, mas passei uma boa parte da viagem andando sozinha também) e volta e meia eu tenho recebido mensagens de leitoras que encontraram meus posts na internet e me pediam ajuda.

Elas começam perguntando o que eu achei do país. Só que, em seguida, surge este tipo de comentário…

Eu pergunto isso porque comecei a namorar um rapaz de lá pela internet e estou pensando em viajar para conhecê-lo…”

Mil sirenes vermelhas começam a gritar na minha cabeça quando eu leio isso. E eu sempre respondia individualmente as leitoras que me procuravam.

Só antes, era um ou outro email. Mas desde janeiro deste ano para cá a frequência aumentou, e eu tenho recebido essa mesma pergunta várias vezes, de mulheres diferentes. E antes que me perguntem, são todas leitoras genuínas, mulheres de verdade, não vi nenhum perfil fake nisso aí.

Todas relatam o mesmíssimo discurso, com pouquíssimas variações:

“Conheci ele na internet e estamos nos correspondendo há algum tempo…”

“Estamos namorando e ele tem falado de casamento…”

“Ele quer me apresentar a família dele, disse que vai cuidar de mim..”

“Ele me disse para viajar para lá para nós nos conhecermos, eu estou pensando em ir mas me sinto muito insegura porque não conheço nada do Egito…”

O que sempre me incomodava, porém, era o fato de que, em TODOS OS CASOS os rapazes em questão afirmavam que não poderiam viajar ao Brasil por N motivos, e insistiam que ELAS é que fossem até o Egito.

E todas elas pensavam seriamente em ir – e invariavelmente sozinhas.

É neste momento em que eu as conhecia: em geral, essas leitoras já estavam na fase dos planos, e estavam procurando referências de como eram as coisas no Egito, se eu podia ajudá-las nas questões práticas de como andar por lá, essas coisas – afinal, eu contava nos meus relatos que tido para o Egito sozinha e tal…

Mas como surgiram vários casos parecidos e num curto espaço de tempo, isso me deixou com a pulga atrás da orelha – e achei que virou um caso para um post. Esse post nasceu de supetão, com a necessidade de desabafar isso para o mundo após conversar com mais uma dessas mulheres. Sem julgamentos, mas como uma ajuda, de verdade. E, claro, deixar a porta aberta para outras mulheres deixarem seus depoimentos também.

Primeiro porém, eu resolvi que precisava responder à pergunta que elas me faziam. Então, leitora, se você tiver achado esse post porque tem essa pergunta na cabeça, está aqui a minha resposta,uma humilde opinião sobre a pergunta que você me fez – e se me permite, incluo ainda um conselho de amiga que você não me pediu.

Entenda: Escrevo esse post como aquela amiga que não te conhece e que não quer/pode ficar se metendo nas suas decisões, mas que sobretudo também é mulher, também viaja (e que também viajou por causa de um cara, porque quem nunca, né?) e que por isso mesmo se preocupa com outras mulheres porque a gente tem mesmo que cuidar umas das outras.

Prometo não fazer julgamentos das suas decisões. Esse post vai ser só com meu profundo cuidado por você, tá?

 

Afinal, o Egito é perigoso? Uma mulher sozinha teria problemas por lá?

 

Bem, foi com essa pergunta que essas leitoras chegaram no meu blog. E eu preciso responder.

Então vamos lá: minha impressão do Egito é que ele não é esse absurdo de perigo todo, mas também não é amigável para mulheres viajando sozinhas. Isso significa que as pessoas não saem “estuprando, batendo e atacando as mulheres na rua” como eu já ouvi, mas tenha em mente que você, como estrangeira e mulher ocidental, vai chamar a atenção – e talvez vá haver alguns momentos em que isso acontecerá de uma forma invasiva, que você não vai gostar.

Vai ter momentos em que um grupo de homens vai ficar encarando de uma forma que você não vai gostar. E pode ficar falando coisas que você não vai entender (mas vai saber exatamente que são coisas que te deixam desconfortável).

N coisas poderiam explicar isso, e a questão cultural sobre como uma mulher viajando sozinha é vista é uma delas. Mas como eu prometi, eu não vou deixar julgamentos para esse post, nem falar mal da cultura egípcia (que também teve aspectos que me encantaram). Vou falar só da experiência que eu tive.

Vai ter momentos em que alguém vai invadir o seu espaço pessoal de uma forma desagradável e “sem querer”. Por exemplo, eu estava em uma fila dentro do Museu do Cairo e o cara de trás andava colado em mim, encostando-se o tempo todo nas minhas costas, mesmo com todo o espaço do mundo para ele se afastar. Era ridículo, era agressivo, era desrespeitoso. Chegou uma hora que eu dei uma cotovelada no indivíduo – que se fez de morto – e precisava andar com o cotovelo apontado para trás, para não deixar ele chegar perto. E não foi num lugar escuro ou esquisito, e sim dentro do Museu mais importante ~e seguro~ do país. Mais especificamente, na sala de jóias onde fica exposta a máscara de ouro do Tutankhamon (leia-se: cheia de câmeras e guardas por todos os lados).

Vai ter homem que vai pedir para tirar uma foto na rua com você. Vários, aliás. E vão fazer questão de abraçar (demasiadamente perto, inclusive) na hora da foto. E alguns podem tirar foto mesmo que você não queira.

Esse foi um dos meninos que apareceu para tirar uma foto. Esse era fofo, então foi bem legal. Mas tiveram horas que não eram crianças e sim homens, e alguns eram meio inconvenientes/insistentes sim.

 

Vai ter homem que vai te seguir na rua. E pode até não acontecer nada, mas isso já vai ser o suficiente para você arrepiar todos os fios do seu cabelo de tensão.

Infelizmente, nada disso seja muita novidade, porque esse tipo de coisa acontece no Brasil também e temos cá nosso repertório de experiências desagradáveis com homens estranhos na rua.

A diferença é que, se alguma coisa acontece no seu país, você sabe como gritar e para quem gritar. E mais importante, sabe que dá para gritar “socorro” e que os outros vão entender. Sabe o telefone da polícia, do seu irmão, pai, avó, amiga, garçom ou de qualquer pessoa para te acudir. Sabe até ler o nome das ruas e, se numa situação hipotética você precisar sair correndo de qualquer coisa (ou simplesmente voltar andando para o seu hotel), você sabe ler o nome das placas para saber para onde ir.

No Egito provavelmente isso vai ser bem mais difícil.

Uma foto que eu tirei das paredes em Aswan, no sul do Egito. Placas com nomes de ruas era mais complicado ainda, eu não conseguia dizer o hotel em que eu estava.

Algumas pessoas falam um pouco de inglês por lá, especialmente nas grandes cidades ou nas zonas mais turísticas, mas não espere que isso vai ser uma constante. Nos meus poucos dias perambulando sozinha (e eu confesso que eu era absurdamente ingênua na época) pelo Cairo, Alexandria e Luxor, eu tinha um certo receio de pegar táxi na rua, mesmo estando com 3 amigas. Sozinha, nem pensar. Várias vezes eu expliquei o meu endereço para o taxista e não sabia se ele tinha entendido – para só descobrir no final que ele me levou no lugar errado. Se o táxi me levasse para um lugar esquisito (e um deles levou, eu conto mais embaixo sobre isso), eu jamais saberia apontar o caminho de verdade. Ao pedir a conta de um restaurante, eu não conseguia ler se o garçom estava me cobrando certinho o que eu pedi. E quando eu ia passear por qualquer uma das cidades por onde fui eu tinha que ficar prestando uma atenção enorme em pontos de referência o tempo todo para não me perder, já que não conseguia ler as placas.

Outra história: Essa foto daí de cima foi tirada em Aswan, no sul do Egito. Neste dia eu e a minha prima ainda estávamos por nossa conta, uma vez que ainda encontraríamos o nosso grupo com o qual dividiríamos o tour. Pedimos ao motorista que nos levasse numa vida de artesanato núbio, que aparentemente era um ponto turístico conhecido e nosso grupo estaria lá.

O taxista, que não falava uma palavra de inglês, disse que entendeu e nos trouxe aqui – era um canto bem afastado da cidade, acessível por apenas uma estradinha de pedras e no topo de um monte, de onde tínhamos uma belíssima vista do Nilo e víamos esculturas em pedra. Eu e minha prima ficamos frustradas por não encontrar o grupo, mas felizes por ter “descoberto” um lugar novo e lindo. Tiramos fotos, selfies, tudo, e voltamos para o hotel.

Mais tarde, após encontrar o grupo, contamos empolgadíssimas para o guia sobre o lugar que encontramos. Ele só arregalou os olhos e nos assegurou de que nunca ouviu falar, e ficou extremamente preocupado com o que poderia ter acontecido conosco.

Hoje, olhando para trás, eu vejo o quanto que essa história poderia ter acabado errado: ninguém sabia do nosso paradeiro (nem mesmo o hotel), ninguém daria pela nossa falta (já que estávamos por nossa conta e sem nos juntar ao guia ainda) e tínhamos sido levadas para um lugar totalmente deserto e desconhecido, longe da cidade, cheio de pedras e sem uma vivalma perto para ajudar em caso de perigo. Sim, deu tudo certo e foi uma experiência boa no fim das contas – mas entrou para a série “loucuras arriscadas que a gente faz e que só se dá conta muuuuito depois!”.

“Ah, mas isso não estragou sua viagem, né? Você continua recomendando o Egito!”

Não, não estragou. Eu até hoje lembro com saudade da minha viagem ao Egito, e considero uma das viagens mais especiais que já fiz. Me diverti e aproveitei muito, e recomendo para todo mundo (mulheres inclusive) uma viagem para lá sim – mas desde que seja com um guia ou num tour, caso você não fale o idioma. Porque apesar das eventuais desventuras que eu tive ao andar sozinha, eu sempre tinha no meu bolso o telefone do guia que falava inglês e para quem eu poderia ligar se eu tivesse problema. Isso me garantiu uma paz psicológica enorme – mesmo com toda a minha ingenuidade da época.

E, muito importante, eu fui com tudo já acertado. Eu tinha hotéis reservados, estava num tour, tudo já acertado de antemão diretamente por mim antes mesmo de chegar lá – ou seja, se acontece algum problema, eu não ia ficar sem eira nem beira.

Claro, isso não é garantia de nada dar errado. Mas falei disso porque nos leva ao segundo ponto (e mais importante)…

“Mas ele disse que vai me receber lá e cuidar de tudo – eu não vou estar sozinha quando chegar lá”.

Então… Eu sei que tanto as outras meninas que chegaram no meu blog como talvez você que esteja chegando agora não queriam pedir o meu pitaco nesse assunto – pelo menos até agora, elas só queriam saber como era a viagem para lá em si, mas eu me sinto na necessidade de destrinchar mais esse assunto.

Você não conhece o indivíduo. Nunca viu antes na vida. Não sabe onde ele mora, como ele mora, e com quem ele mora (já pensou se ele for casado? No Egito é permitido ter mais de uma esposa). Ou seja, você está indo para um país desconhecido e estranho para você (lembre de novo do lance da comunicação que eu falei ali em cima… como você vai falar, ler, se virar sozinha quando ninguém entende um pingo do que você está dizendo, e vice versa?), compra uma passagem de um mês para ficar lá e vai deixar toda a sua hospedagem, alimentação, segurança, tudo mesmo… nas mãos de uma pessoa que você nunca viu na vida e não sabe absolutamente nada dele – inclusive se ele está falando a verdade??

Em tempo: esse post não é contra egípcios, muçulmanos, etc. Eu faria essa pergunta mesmo se você quisesse ir para conhecer alguém em outra cidade de uma região distante no Brasil, bem longe da sua casa e onde você nunca foi…

Agora, imagine em outro país? Se tudo desse errado no Brasil, por exemplo, na pior das hipóteses você liga para alguém da sua família, pede para comprarem uma passagem de ônibus e volta para casa… Mas imagine isso acontecendo num país que você não fala o idioma, não conseguiria se comunicar, não conseguiria nem ler o que está escrito e tudo (idioma, leis, transporte, TUDO) é mais complicado?

“Ah, mas ele me garantiu que vai cuidar de mim. Ele tem sido muito carinhoso. Ele tem falado de casamento por lá”

Pronto, chegamos ao momento delicado em que eu preciso te contar uma coisa. E prometo que não vou ser moralista aqui.

No costume egípcio, foi comum por anos (e ainda é em alguns locais) o casamento arranjado. Os casamentos sérios são aprovados pela família – e tenha em mente que a família tem um peso muito forte no Egito, muito mesmo. Então, basicamente o que acontece é o pai de um rapaz mais jovem começa a procurar uma noiva para o seu filho. Se ele descobre uma jovem que ele considere que pode ser boa para o seu filho (e entenda que ele nem precisa de muita conversa para isso), esse homem vai pedir o contato dos pais dela e já negociar o casamento direto com a família da noiva. A garota e o rapaz podem até se encontrar antes do casamento, mas sem muita intimidade.

Uma das meninas egípcias que conhecemos na viagem.

 

Isso ainda acontece. Mas em cidades maiores, como Alexandria e Cairo, o próprio rapaz pode também procurar sua noiva e fazer ele mesmo a proposta. Estou explicando essa questão cultural porque o fato de um rapaz do Egito propor casamento “muito rápido” (para os nossos padrões), não é porque ele está perdidamente apaixonado – é porque o costume deles é esse mesmo, não envolve o tal tempo de romance que a gente está acostumado.

Só que tem um detalhe aí: exatamente porque isso acontece, se ele prometeu se casar com você assim que você chegar lá, tenha em mente que há grandes possibilidades de isso não acontecer (desculpe dizer isso, mas é para o seu bem, juro!!). 😟

 

Casamento pela internet pode ser uma pegadinha (e você é a vítima)…

 

Isso que eu expliquei acima é como funciona com as famílias egípcias, que em geral são muito tradicionais. A sociedade egípcia é uma das mais liberais entre os países muçulmanos, mas ainda assim é muito mais tradicional do que a nossa. Só que nós, brasileiras, somos ocidentais e não entramos nessa matemática. Por costume e tradição, somos diferentes das mulheres egípcias: nos vestimos diferente, mostramos cabelo, colocamos biquíni, podemos namorar livremente antes do casamento, podemos trabalhar e nos sustentar sozinhas, nos comportamos diferente e temos muito mais liberdades do que elas tem. E eu não estou criticando, de forma nenhuma, a religião muçulmana, mas o meu ponto aqui é o fato de que a gente (mulher brasileira) poder fazer tudo isso não é muito bem visto por quem tiver a visão tradicional de lá. Existe o estereótipo de que somos vistas (brasileiras, européias, americanas) como um povo “cheio de liberdades” e por causa disso muitos homens do Egito e de outros países muçulmanos acham que as mulheres desses países topam qualquer coisa – inclusive sexo fácil.

E não tem problema se você quiser embarcar na aventura com ele se quiser sexo também. Eu disse que não faria aqui julgamento sobre a sua decisão. O problema é você se colocar em risco por causa disso.

“Ah, mas há homens que não pensam assim”.

Há, sim. Conheci alguns deles, e suas famílias. Mas a verdade é que esses JAMAIS iriam pedir para uma moça viajar sozinha para o país dele para conhecê-lo, alegando que ele não pode ir, ou oferecendo hospedagem na casa dele para uma moça se não for casado com ela (mesmo que a promessa de casamento esteja implícita depois). Ele não faria isso nunca – lembra que eu disse que a família é extremamente importante no Egito? Primeiro, ele sabe que uma família egípcia jamais deixaria essa moça fazer isso (e é natural que ele espere que outras famílias que cuidam de suas filhas fizessem isso também). E se ela fizesse, provavelmente seria a família dele que não aprovaria porque ela “não seria uma moça direita”. E nada de casamento nesse caso, porque como eu expliquei, a aprovação da família é uma coisa muito séria.

Mas no entanto, em todos os casos das mulheres que chegaram a mim, elas diziam que eles sempre insistiam para que elas fossem até lá. E prometiam casamento – não é esquisito?

A verdade é que, no costume egípcio, o marido tem que cuidar da esposa. Então, sim, ele traria a esposa para a sua casa, e o costume diz que é obrigação dele ter já uma casa toda pronta e equipada para recebê-la. E, como acontece em tantos países, ter isso é caro, certo? No caso do Egito, um problema atual é que muitos jovens estão noivos por anos porque estão com dificuldades de juntar dinheiro para casar – há até promessas políticas para ajudar os jovens a ter um emprego e conseguirem bancar uma casa. Se ele diz que vocês vão se casar, taí uma boa pergunta: ele tem uma casa pronta – ou você vai morar com a família dele (mãe, pai, avós, irmãos)? E mais importante ainda, você sabe se essa casa realmente existe? Pergunto isso porque, honestamente, acho que se essa casa existisse mesmo, isso significa que ele provavelmente tem dinheiro para montá-la e sustentá-la, e portanto poderia muito bem te visitar no Brasil ao invés de você ir para lá. Né não?

Se ele promete que vai levá-la para conhecer a família dele… bem, eu acho isso  arriscado. Primeiro, não há o conceito de “amiga” e “amigo”; você sempre vai ser entendida como a “namorada”. Mas isso não quer dizer que a família dele vai aprovar o casamento imediatamente (muito provavelmente não, pelos motivos explicados acima). Sabe essa história linda de um homem que desafia a família dele para casar com a mulher que ama e tal? Isso é muito lindo no livro de história, mas na vida real é mais difícil – especialmente se esse homem em questão não tem dinheiro sequer para comprar uma passagem para o exterior – que dirá manter uma casa com uma esposa “não aprovada” contra tudo e contra todos.

Alertas sobre golpes em mulheres brasileiras que começam um namoro pela internet com um homem do Egito

 

Eu super entendo esse lance da gente se corresponder com alguém via internet, da coisa evoluir e de marcar uma viagem para o exterior para se conhecerem de verdade.

Juro, entendo mesmo. E sou uma romântica incorrigível, acredito nelas. Inclusive, de certa forma foi assim também que aconteceu com meu marido.

Só que, no nosso caso, a gente tinha se conhecido numa viagem, eu voltei ao Brasil e ELE que veio para me conhecer melhor. Eu estava na minha área, na minha zona de segurança, com meus amigos em volta – e ele em um hostel. E eu só fui para o país dele depois que a gente estava quatro meses morando juntos no Brasil.

Por causa disso, eu não estranhei quando recebi uma ou outra mensagem de uma mulher perguntando dicas e conselhos de como ela poderia fazer para ir ao Egito conhecer um rapaz com quem ela tinha conhecido pela internet. Mas comecei a estranhar, sim, quando começaram a aparecer 4, 5 relatos muito parecidos, todos de mulheres de verdade. E o pior, em todos os casos o discurso do cara era o mesmo! 😡

Daí eu fui pesquisar sobre isso na internet. Minha suspeita era ver se por acaso estava rolando uma “onda” de flertes virtuais feitas homens egípcios e com alvo específico em brasileiras.

E o que eu encontrei foram dezenas de sites, relatos e alertas sobre uma série de golpes – e não só com brasileiras, mas com mulheres dos Estados Unidos, da Europa, do Ocidente como um todo. Eis um pitaco do que eu vi:

  • Encontrei dois alertas das embaixadas dos Estados Unidos e do Canadá sobre o número de golpes de “promessas de casamento” via internet vindas de homens egípcios;
  • Encontrei ainda um fórum de depoimentos russos e outro de depoimentos em inglês de mulheres que conheceram homens do Egito com essas mesmas promessas. Essas mulheres que caíram no conto de vigário decidiram montar uma base de dados com fotos desses homens e informações para advertir outras mulheres (eu não pus os links aqui porque a qualidade do site era muito esquisita, mas o que não faltava eram depoimentos e fotos de mulheres que foram vítimas desse golpe da proposta de casamento).

Mas o que ele pode estar querendo de mim? Ele nunca me pediu dinheiro.

Olha, na melhor das hipóteses (e eu respondo isso com base numa pesquisa que eu fiz por estes fórums de mulheres no Brasil e no mundo, para este post) o que ele pode estar atrás de você é:

  • Sexo: Mais uma vez, não estou julgando ninguém nem querendo dar lição de moral! Não tem nada de errado querer ir para cama com alguém, mas a questão aqui é o seguinte: na nossa cultura, não tem problema uma mulher ir para a cama com um homem (seja ele desconhecido ou não) antes do casamento, mas no Egito isso de sexo fácil é bem mais difícil (vide a forma que eu expliquei como os casamentos acontecem). Então ele jamais faria esse convite de chamar uma mulher egípcia para viajar sozinha e se conhecerem com a intenção de casar depois. Há uma visão no Egito de que as mulheres ocidentais são mais liberais e estão dispostas a ter sexo sem compromisso com homens – e ele vai tentar a sorte com você. Mais uma vez, sem problemas se você estiver disposta a isso, mas pelo menos não acredite da história do conto de fadas, do casamento feliz e tal que vai vir depois disso.
  • Visto: ou sim, ele quer casar com você sim – mas não por causa do amor profundo que ele sente, e sim para conseguir um visto. Acredite ou não, muita gente fica falando mal do Brasil e tal, mas o nosso passaporte lá fora é bastante cobiçado, e muita gente tem vontade de vir morar aqui. E é aí que também está o risco: encontrei diversos relatos de mulheres que chegaram a casar com um egípcio e, assim que ele chegou no Brasil com o visto todo direitinho, ele desapareceu – afinal, não precisava mais da esposa, certo? Ou, pior, o namorado tão atencioso de antes que era um amor de pessoa se transformou numa pessoa completamente diferente depois do que conseguiu o que queria – e daí vem os casos de violência doméstica e abuso. Você não quer isso para você.

Deixa eu contar outra história sobre isso: quando eu viajei para o Egito, eu viajei com minha prima, que é brasileira mas morava na época nos Estados Unidos (ela tinha o visto americano de trabalho, pois trabalhava como expatriada numa empresa brasileira lá). 

A gente andava tanto com o grupo como só nós duas, e era comum receber dezenas de “propostas de casamento” quando andávamos na rua. No início a gente a gente até ria com isso: “aquele cara me ofereceu três camelos”, “Ih, ofereceram cinco camelos para ela”, e etc. Minha prima, porém, liderava nas “propostas” – ela tinha um biotipo meio egípcio, e mesmo sem querer era só chegar em qualquer lugar que ela roubava as atenções. Mas uma vez, a gente ria disso. “Prima, não aceite menos de 500 camelos”, eu dizia, brincando.

Isso tudo era brincadeira até a hora em que fomos numa loja de souvenirs em Luxor, comprar uma besteirinha qualquer para levar de lembrança. Era uma rua lotada de turistas e o proprietário, um senhor de idade acostumado a lidar com gente do mundo todo, puxou papo por acaso. E conversa vai, conversa vem, dissemos onde morávamos – e ela, especialmente, que morava nos Estados Unidos.

O olho dele arregalou, sério. E na hora a expressão mudou.

Perguntou se ela era casada. Não era. Perguntou porque o pai dela “não tinha casado ela”. A gente riu e desconversou (concordo que não lembro o que dissemos na hora, mas que também não era importante). Mas o homem continuou impassível. “Então aguarde um pouco. Eu tenho um marido para você. Meu sobrinho é um ótimo rapaz. Vou mandar uma mensagem agora para ele. Por favor, me passe o telefone do seu pai – eu vou falar com ele por telefone agora. E me diga onde você está – amanhã mesmo vou até lá com o meu sobrinho e já acertamos tudo com o seu pai.”

Levamos alguns minutos, eu e a minha prima, para perder o riso desconcertado de quem estava levando tudo na brincadeira. O homem estava seríssimo; imediatamente começou a resolver as coisas por telefone e já buscava a caneta e o papel para anotar nosso endereço – tudo aquela cara de negociante experiente que sabe exatamente como conduzir uma transação comercial.

Meu tio trabalhou vendendo carros a vida toda. E eu vi como era exatamente assim que o senhor “negociava” o casamento da minha prima. Como a revenda de um carro. E que, assim como o meu tio, em nenhum momento ele perguntou ao “carro” qual era sua opinião.

A gente ficou tão perplexa que saímos correndo desesperadas da loja – a ponto de deixar o troco e as lembrancinhas lá. Mas dias depois a mesma proposta de casamento (uma transação) iria se repetir com a minha prima. Várias vezes, até o fim da viagem.

“Clarissa”, ela diria, “eu tenho certeza de que aqui ninguém me vê. Os elogios, as propostas de casamento, nada disso é para mim. Eu sou apenas um visto. E o que eles veem em mim é uma rota fácil para os Estados Unidos”.

  • Dinheiro: Ok, ele pode até não ter te pedido dinheiro agora – o que não quer dizer que não vá pedir depois. E você não precisa ser rica para alguém estar de olho no seu dinheiro – porque mais uma vez, com todos os problemas que a gente vive no Brasil, nosso poder de compra é muito maior do que a média da população do Egito. Lendo em alguns desses fóruns e alertas de embaixadas eu descobri que, no passado, era muito comum que eles pedissem dinheiro para a passagem, por exemplo, ou para adiantar o apartamento… Mas como as pessoas ficaram mais desconfiadas, o discurso atual é de que eles vão cuidar de tudo quando você chegar lá – só que nada impede que, na hora que você estiver lá, ele não suma com seu passaporte ou exija dinheiro (lembra que ele está no país dele e muito provavelmente ninguém vai entender um pingo do que você está dizendo!). Ou, ainda, faça você pagar por tudo (eu li vários relatos sobre isso também).
  • Sonho: Um dos relatos que eu li contava a história de uma mulher que se correspondia com um egípcio por meses. Ele prometeu casamento, apartamento, disse que já tinha uma casa pronta e estava decorando tudo para eles morarem juntos, etc. Até mandou foto da casa e tal, ainda em obras. Ela, diante das “provas” de que ele estava falando para valer, comprou a passagem e foi. A verdade é que bastou ela chegar no Egito para ele desaparecer completamente. Depois de muito pesquisar e de pedir ajuda ao consulado do país dela, ela descobriu que ele estava noivo de outra mulher e que o apartamento em questão existia mesmo, mas era o que ele estava construindo para sua própria futura esposa – e o fato dele manter o relacionamento virtual com ela era mais um fetiche pessoal dele de “ter uma namorada loira e ocidental”. Quase um status, sabe? Ele nunca teve mesmo a intenção de levar a coisa adiante, ele só queria o sonho. Parece exagero? Eu lembro que o meu guia egípcio da minha viagem (que era um rapaz novinho) adorava dizer que tinha tido uma namorada holandesa loira, e que o sonho dele era namorar uma brasileira…

E isso na melhor das hipóteses… ainda nem falamos de tráfico humano, exploração sexual, etc…

“Mas todos eles são assim? Como eu vou saber que ele está falando a verdade?”

 

Não, é claro que a intenção desse post não é generalizar todos os homens egípcios e condenar qualquer relacionamento – nem mesmo quero denegrir de forma alguma a religião muçulmana e por isso também não estou entrando muito no mérito de fazer julgamentos de uma ou outra religião – até porque golpes feitos por pessoas de má-fé infelizmente acontecem em todo lugar. Inclusive, o ótimo 360 Meridianos postou um relato de uma mulher que teve uma história parecida e várias reviravoltas no meio do caminho (incluindo o fato de ter que se adaptar a um estilo de vida totalmente diferente), mas que ela está feliz e conta tudo aqui. E vale avisar que os egípcios, em geral, são muito apegados a valores tradicionais como família, são extremamente cavalheiros e ótimos antifitrões. E sim, há casamentos felizes por lá.

E por esse motivo há muitos egípcios que também ficam indignados com esses golpes pois sabem que isso arranha a imagem do país. E como infelizmente gente ruim não é privilégio de um lugar só, separei uma lista de sinais para você ficar de olho e perceber se o cara está falando para valer ou se é golpe, puro golpe.

 

Alguns sinais de que o papo dele está errado:

  • Como você o conheceu? Foi ele que abordou você do nada, por alguma rede social ou chat? Por exemplo, ele que puxou papo pelo Facebook, ou pelo Skype? Vocês não tem nenhum conhecido em comum? Ele chegou mandando uma mensagem do tipo “Oi, tudo bem? Te achei muito bonita…”, ou algo nessas linhas? Se foi esse o caso, abra o olho: altas chances de ser golpe. Como eu disse, os homens egípcios sérios que eu conheci eram extremamentes respeitosos a todo momento e sempre se apresentavam através de uma referência – uma abordagem assim, direta, era quase sempre feita pelos aproveitadores.
  • Você chegou a viajar para algumas cidades da costa do Egito, como Sharm-el-Sheik ou Hurghada e conheceu ele lá? Ele te abordou de repente? Encontrei sites de guias de turismo egípcios que alertam para grupos de homens jovens nessas cidades que são especializados em abordar mulheres. Especialmente porque essas cidades são locais turísticos super populares entre europeus, americanos e canadenses, e muitas mulheres viajam para lá desacompanhadas (seja em tours, seja sozinhas, etc), e há grupos de homens de olho nessas mulheres, se fingindo de galanteadores apaixonados, mas para no fim fazerem elas pagarem tudo para eles. Achei foruns de discussão russos de mulheres que postavam fotos, nomes e endereços desses caras para alertar outras turistas de quem são as mesmas pessoas que dão os golpes mais comuns.
  • Ele insiste de todo o jeito para você ir para lá. Os motivos são os mais variados possíveis: ele diz que não tem dinheiro, ele diz que não tem uma conta bancária internacional, ele diz que esta trabalhando muito, ele diz que não tem passaporte. Mas ao mesmo tempo, ele diz que é muito mais fácil que você vá para lá e que ele vai cuidar de tudo para você – dar casa, comida, roupa lavada, te tratar como uma rainha. Como eu expliquei lá em cima, isso é no mínimo suspeito. 

E outra coisa: na prática, o esforço/dinheiro/tempo de viagem para você ir para lá é quase o mesmo dele vir para o Brasil. Porque você que tem que ir? Já que ele não se diz cavalheiro, porque ele que não vem?

  • Ele falou que te ama e prometeu casamento? E tipo, já falou isso com pouquíssima conversa entre vocês? Olha, pela pouca experiência que eu tive ao conhecer homens egípcios, os homens mais respeitosos JAMAIS vieram com esse papo – pelo contrário, eles conversam, são atenciosos e fazem questão de conhecer você e te deixar absolutamente confortável. Até porque casamento é coisa muito séria, e se o cara for sério também ele vai envolver a família – a sua e a dele – e vai fazer isso de forma cuidadosa. Mas se já fez juras de amor eterno em dois dias, suspeite. Aliás, isso valeria para homens de qualquer nacionalidade.
  • Ele é muito mais novo que você? Então, eu não quero ser indelicada em relação a isso, mas a diferença de idade nesses casos é um enorme alerta. É o seguinte: no Egito faz parte do costume casar-se cedo – tanto que em geral os homens procuram as jovens para casar, cuidar da casa e tal. Mulheres mais velhas tem poucas chances de casar mais tarde (ok, isso está mudando aos poucos, especialmente nas grandes cidades como o Cairo, mas infelizmente ainda é algo recorrente no resto do país). A gente vem descontruindo isso já há algum tempo na nossa sociedade, mas sabe essa imagem que infelizmente ainda persiste de mulheres mais velhas saindo com homens mais novos é algo que atrai fofoca? Bem, se isso ainda acontece no nosso “mundo ocidental”, dito mais moderno e tal, o que dizer de um país e de uma sociedade mais tradicional?

Por outro lado, é exatamente este o público alvo – mulheres mais velhas que os rapazes em questão – as que tem sido vítimas desses golpes em todos os fórums que eu encontrei. Sem exceção.

Veja bem, eu digo isso sem nenhuma intenção de ferir ninguém ou porque eu desacredito de amor independente da idade, mas é simplesmente porque esse tem sido um caso constante e a gente precisa ficar de olho.

 

“Então o que eu faço?”

 

Mais uma vez, eu não quero fazer julgamentos das suas escolhas, nem parecer que eu estou destruindo o que poderia ser uma história de amor de verdade. 🙁 E por isso, taí algumas coisas que você pode fazer ANTES de comprar uma passagem para lá só para ver se essa história de amor é amor mesmo ou é cilada…

Manda ele vir ao Brasil: Sim, simples assim. Sabe o sacrifício de ter que pedir visto, comprar passagem (em prestações a perder de vista), providenciar cartão internacional, dinheiro, ver mala, etc? Pois é, você teria que ver tudo isso para ir para lá, e vice versa – ele precisaria providenciar tudo para vir para cá também. E cá para nós, o trabalho, estresse e custo é proporcional para ambos – com a diferença de que aqui, você está no seu terreno, na sua zona de conforto e com a proteção dos seus amigos e família – ou, ao menos, do conforto de estar no seu ambiente conhecido. Se a história é para valer mesmo, mandar ele vir para cá é uma ótima forma de pôr isto à prova – e se der certo, você vai se divertir tanto quanto!

Você tem um amigo que esteja disposto a ir ao Egito com você, ou num outro país “no meio do caminho”? Tá, mas você está louca para viajar para outro país e de quebra conhecer lugares novos. Então, que tal em vez de ir ao Egito sozinha, você vai com um tour, e com uma pessoa que você conhece e confia – e se hospeda bonitinho num hotel, num lugar seguro,  e deixa para conhecer o tal moçoilo sem depender dele para sua estadia. Ou, ainda melhor: o Egito fica a 5 horas de vôo de algumas das principais capitais da Europa, como Roma. Que tal marcar lá – e se você tiver amigos que morem na Europa e que você possa ficar com eles, melhor ainda?


E lembre-se: histórias de amor via internet existem, e ciladas também. Proteja-se – afinal, de todos os amores, o próprio é sempre o mais importante.  ❤️

Comments

2 COMENTÁRIOS

  1. Incrível como isso é comum. Tem uma blogueira que mora na Turquia e que apareceu naquele programa da Band, “O mundo segundo os brasileiros”. Ela fazia uns videos alertando as brasileiras sobre este tipo de golpe. Na época estava passando uma novela turca no Brasil e a mulherada ficou alucinada.

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