Quando as pessoas vão à Granada, o ponto alto da visita é, indiscutivelmente, a citadela murada de Alhambra. É como se todo o resto da visita pela cidade girasse ao redor dela, e os demais passeios pela cidade fossem arranjados nas brechas de tempo da programação entre a visita. Depois de Alhambra, o que der para visitar, deu.

Ou, pelo menos, foi essa a sensação que tive ao estar lá. Explico.

Considerando que uma visita merecida à Alhambra demora em média 5 horas e a grande maioria dos turistas fica apenas uma noite ou duas, o que sobra de fato é muito pouco tempo para desbravar Granada.

Compreensível: para quem tem uma viagem com tempo limitado, Alhambra é definitivamente a cereja do bolo. 🍒

Mas se Alhambra é a cereja, Granada é indiscutivelmente o bolo: deliciosa, bonita por fora e com gosto caseiro por dentro, feito com amor e com receitas de família, que compõe o todo da viagem, dando a substância perfeita porque, afinal, cereja sozinha não faz sobremesa.

Eu vi que, em geral, as pessoas passam apenas uma a dois dias em Granada. Íamos fazer o mesmo: a idéia inicial era ir para Málaga curtir um dia de praia e depois seguir para Granada, mas Málaga estava super quente e com muitas festas na rua (leia-se som alto, cheiro de xixi e muito lixo). Então, adiantamos nossa viagem e acabamos ficando 3 noites e 3 dias inteiros em Granada.

Mas, como dizem, há Málagas que vêm para o bem. 😜

Meu marido já tinha ido à Granada e Alhambra, e foi dele a idéia e o entusiasmo de marcarmos para lá nossa viagem de férias, as últimas férias possíveis que poderemos até o ano que vem.

Eu acho que você vai gostar de Alhambra. Ela gera o mesmo efeito de Machu Picchu, sabe? De maravilhamento, de “wow”. Sabe um lugar que faz jus às expectativas que você faz dele? Pois é, Machu Picchu faz jus às expectativas, “it lives up to it”. Alhambra também “lives up to it”.

Confesso: para uma blogueira e jornalista de viagem, essa frase do meu marido era toda a informação que eu tinha sobre Granada e Alhambra antes de ir, o que já era mais do que tudo o que eu já tinha pesquisado sobre a região: um total de zero.

Eu tinha alguns motivos, todos questionáveis, para justificar essa pinimba. O sul da Espanha nunca me despertou muito interesse: eu tenho uma implicância enorme com a cultura de touradas e, por uma inconsciente aversão, coloquei toda a região geográfica no pacote “não tenho interesse” e deixei super para lá. Outro motivo seria que um trabalho que eu fiz para uma empresa espanhola por um ano e meio me rendeu uma das piores gestoras ever que eu já encontrei na minha vida profissional, o que também não ajudou muito a melhorar minhas relações com esse cantinho da península ibérica.

Mas antes de me julgarem, aviso que eu também nutri por anos uma aversão mortal por feijão e espinafre por muito menos (achava espinafre feio e não gostava como o feijão se espalhava no prato e “encostava no arroz”), de modo que tenho total consciência de que estes espasmos de implicância gratuita me acometem de vez em quando desde a alta maturidade dos meus dois anos de idade, de modo que procuro ficar sempre atenta e aberta para identificá-los e desmistificá-los quando a vida me faz dar de cara com um, dentro de mim.

A verdade é que desde 2013 a vida já vinha trabalhando as pazes comigo e com a Espanha devagarzinho (a despeito dos nossos temperamentos, alguns diriam). Eu conheci o Mark, meu atual marido, depois que ele tinha passado 6 meses morando em Sevilha, e parte das nossas primeiras conversas foi sobre as experiências dele ali, ainda frescas na memória. Nos anos seguintes, eu iria à Menorca e Mallorca por uma semana cada uma, por razões de trabalho, e recentemente fui a Madrid por meteóricos 4 dias para rever duas amigas queridas, a Rafa do Brasilenha e a Ludmy do Vou Contigo.

Mas ainda não tinha sido aí que a Espanha tinha me pego de vez. 😐

A viagem para Granada (a cidade) caiu no meu colo como a sua homônima granada (a bomba): de repente, sem esperar, e com aquele intervalo de tempo curtíssimo em que a gente mal se dá conta do que está acontecendo antes que ela, finalmente, exploda. A metáfora é clichê, mas funciona: por mudanças no trabalho de ambos, surgiu de repente uma única semana com a  possibilidade de férias, de viagem, e seria a última até sei lá quando do ano que vem. Era pegar ou largar. Pegamos. “Vamos para onde?” “Tenho falado do sul da Espanha, que queria te levar. Topa?” “Topo. Onde?” “Granada tá menos quente” “Então bora”.

Compramos. E para a jornalista de viagens control-freak-que-gosta-de-planejar-tudo-com-milhões-de-séculos-de-antecedência que sou, foi só no avião que fui ler o que tinha para fazer em Granada (incluindo what the hell is Alhambra). Me senti total vida loka. E foi bom.

Lição 1: paixonites de viagem não acontecem só entre pessoas.

Lição 2: elas também acontecem assim, desavisadamente.

Usando a mesma comparação que o meu marido usou, se Alhambra está para Machu Picchu, Granada está para Águas Calientes e Ollantaytambo. Guardadas as devidas proporções entre as cidades, há um constante sentimento de espera em Granada e Águas Calientes, como se em ambas funcionassem como uma espécie de ante-sala de espera para o evento principal. Por muito tempo, Águas Calientes funcionou como isso mesmo, uma base de exploração, mas que recentemente começou a deixar florescer aqui e ali alguns serviços e segredos que só quem se estica mais tempo pode descobrir – o mesmo vale para Ollantaytambo, graciosíssima por si só.

Já Granada sempre existiu como destino único em si mesma, espetacular, que merece ser mais do que um ponto rápido de passagem.

Um dos muitos bares gracinha de Granada

Porém, ao contrário de Machu Picchu e Águas Calientes (em que um não tem vista direta para o outro), como a cidade de Alhambra está encarapitada sobre a montanha e visível de quase todos os pontos da parte histórica de Granada – a sensação é semelhante a dos cariocas, que avistam o Cristo Redentor com facilidade de boa parte da cidade –  é fácil e quase irresistível namorar de longe a espera da visita à citadela, só ao olhar para cima.

E, não raro, esquecer de olhar para os lados.

Dica do amor: quando em Granada, olhe para os lados. 😉

Uma granada (digo, a bomba) tem por definição ser uma espécie de bomba pequena que, quando acionada como um gatilho, leva de 4 a seis segundos para explodir. É nesse curto intervalo de tempo entre o gatilho e a explosão que um complexo processo acontece dentro da granada para resultar no ápice da experiência, o “boom” que a gente vê.

Porém, se a gente retira o aspecto bélico da proposta, o que fica é esse intervalo de tempo, de espera, de processo acontecendo por dentro para de repente explodir em algo grande, iluminado, transformador.

Minha sensação na viagem foi mais ou menos assim: o gatilho foi a chegada à cidade e o ápice, a explosão de “uaus” que foi a visita à Alhambra.

Entre os dois, o intervalo acontece. Granada aconteceu.

Um flagra de Granada acontecendo na minha mesa

Deixamos a visita a Alhambra na parte da tarde do terceiro e último dia na cidade, de modo que tínhamos dois dias e meio para degustar a cidade de Granada preguiçosamente, como o verão espanhol manda. Foi providencial: eu aprendi que a vida de Granada escorre pelas ruas, devagar, quase miúda no meio da tarde por causa do calor, e retorna com toda a força depois que o sol baixa. Em ambos os horários, é deliciosa.

Foi uma guia escocesa que conseguiu colocar em palavras o que eu estava sentindo: “Eu vim para Granada há 22 anos atrás. Me apaixonei por Granada e por um rapaz. O rapaz já não existe mais, mas Granada está aqui e sou encantada por esta cidade”. Ela me explicou da rivalidade que existe entre Sevilha e Granada, ambas cidades importantíssimas da Andalusia.  Rixa feíssima: Sevilha é capital da Andalusia e uma pérola para o turismo, mas Granada, exatamente por ser menor (com um terço da população de Sevilha), com ares de montanha e uma universidade, compensa essas vantagens a seu favor. É intimista, é amigável, é (do seu jeito) prafrentex.

Sevilha impressiona. Granada abraça.

Dito isto, não existe isso de uma ser melhor que a outra.

Dito isto, eu sou uma pessoa de abraços.

“O modo espanhol de curtir os bares” explicava a minha guia escocesa “é sempre ficar um pouquinho num bar, beber uma caña (copo pequeno, com uma medida de cerveja), comer uma tapa, e seguir para outro bar. É comum fazer isso: os espanhóis vão pulando de bares em bares, encontrando com amigos e tal. Os bares mais antenados criam tapas interessantes para trazer sempre essas pessoas, fazê-las voltarem ao bar sempre”.

Minha guia escocesa

Um pouco ao contrário dos pubs ingleses, eu pensei. Ali as pints são maiores, o que faz o pessoal levar bem mais tempo no pub. E, bem, tem o fator clima também – considerando que eu passo mais frio que calor na Inglaterra, eu também preferiria ficar mais tempo dentro do pub. Mas isso era uma reflexão minha, com meus botões. Voltemos.

A verdade é que o mesmo princípio espanhol de explorar as tapas e cañas da cidade se aplica muito bem na hora de explorar a cidade em si. Fomos a Granada em Agosto, no auge do verão calorento espanhol. Por isso mesmo, a cidade é cheia de pequenos oásis de descanso para parar, seja um bar de rua para tomar uma cerveja e se refrescar, seja um bistrô mais arrumadinho para tomar um vinho branco, seja uma “teteria” (casas de chá) tomar um chá (quente ou gelado, como preferir), seja a piscina do hotel onde estávamos.

Tivemos tempo, inclusive, de voltar nos lugares que gostamos mais. E íamos ficando, ficando, seja esperando a cerveja acabar, seja esperando o calor dar uma trégua, seja observando as pessoas na rua.

Neste estado de espera, de suspensão, não ligamos muito para as listas de “must do” em Granada. Elas existem, e fomos conferir algumas atrações (escrevo mais sobre elas depois). Mas, sobretudo, o que fez Granada ser especial foi a ausência de pressa, foi o degustar. Nossas melhores experiências foram descobrir bares escondidos de tapas delícia, um bar de jazz maravilhoso, os baños inspirados nas antigas casas de banho… (fotos abaixo retiradas do Instagram do Hammam Alandalus Granada, onde são feitos os banhos árabes – e eu que não pude tirar foto de lá de dentro, mas recomendo muitíssimo checar de perto!)

E, claro, as terrazas com vista para Alhambra. Sentar e beber algo com uma vista dessas nos trazia nitidamente a sensação de estar vivendo um privilégio.

Hoje, olho para trás e vejo que a viagem a Granada foi um delicioso “viver a espera”. E para quem é super ansiosa como eu, ter descoberto que essa espera foi tão bom quanto o ápice em si foi um grato aprendizado.

Resta só me lembrar de me lembrar disso no futuro. 😬

A minha vida tinha dado uma reviravolta enorme há alguns meses e, nos três dias anteriores à esta viagem, deu outra de novo. A primeira me pegou de surpresa, a segunda já foi decisão minha, e assim como uma granada de mão, pouca diferença faz quem puxa o gatilho: vai tudo para os ares do mesmo jeito.

Coisa parecida com o que aconteceu com os meus planos e certezas deste ano.

Não que eu esteja reclamando – eu abracei o fato de que é fora da zona de conforto que acontecem os milagres – mas leva um tempo para a gente acertar o rumo e acomodar as inseguranças.

Ir para uma cidade que tem uma aura de espera era tudo o que eu precisava no momento. Mark acertou no destino muito mais do que ele imaginava. ❤️

Alhambra me deixou eufórica.

Sim, é a cereja do bolo. Sim, ela faz jus a toda e qualquer expectativa que você tem sobre ela. Sim, faz todo o sentido deixá-la para o fim da viagem, como a chave de ouro da experiência. 😍

E não teve calor nem excesso de turistas que diminuísse o nível de “uau” a cada lugar que eu entrava. Talvez, por isso, todo mundo fica com o dedo frenético tentando tirar milhões de fotos da mesma coisa. Nenhuma foto consegue fazer caber a beleza do lugar.

E se Granada é sobre espera, Alhambra fala de trabalho: um trabalho meticuloso e profundamente manual, quase como uma prece feita pelas mãos. É o que a gente sente ao ver aqueles tetos, portas e colunas delicadamente esculpidos à mão, quase que como um pedras rendadas. Absolutamente lindo.

São detalhes de cor, de textura, de luz e sombra, cuidadosamente arranjados num palácio (anote: Palácios Nazários) que parecem gritar suor e trabalho, ainda que a visita seja, na medida do possível, silenciosa (salvo o barulho do movimento incessante de turistas). Ainda assim, a experiência é por demais grandiosa para ser estragada. Sorte nossa.

Fora que a gente não consegue falar muito mesmo. É um dos efeitos colaterais de ficar boquiaberto. 😮

Foi só ao voltar de Alhambra, caminhando devagar pelo trecho da rua que leva de uma a outra, que eu fui me dando conta da diferença de ânimos entre as duas. Alhambra foi estupefamento puro, mas voltar à Granada depois de Alhambra foi substituir a aura de espera por uma de serena comemoração. Minha última noite em Granada foi ainda mais gostosa.

Granada me deixou metafórica.

Agora me dei conta de que eu estava aqui, falando das granadas bomba, que foi a primeira metáfora que me veio à cabeça (sinal dos tempos belicosos em que vivemos, seria?) quando na verdade o nome de Granada, essa linda cidade espanhola, pode ter sugido de duas origens: uma do árabe Gar-Anat que significa “colina de peregrinos”, e o outro inspirado de “pomegranate”, que significa romã (a cidade é cheia de romazeiras).

O primeiro fala de jornadas e chegadas, e o segundo fala de um fruto geralmente servido no ano novo, como desejo de que o que virá será melhor do que o que passou.

Qualquer um dos significados me veste bem. Granada entrou na minha lista de cidades-poesia: quando as metáforas te encontram mesmo quando você despista elas.

Para quem só tinha indiferença pelo sul da Espanha, saí dos três dias em Granada pesquisando preços de casas por lá, como quem não quer nada. Como quem não quer nada, pensando em largar tudo e morar aqui.

Bem, é bem improvável disso acontecer (pelo menos por enquanto) mas é um sinal de que Espanha e eu finalmente fizemos as pazes.

Considerando essa minha transformação granadina e o fato de que hoje eu também tenho a melhor das relações com espinafre e feijão, acho que estou me sentindo mais madura em relação às minhas implicâncias. Ou mais madura, ponto. O que é um bom sinal também.

Granada, que encanto você é. ❤️ Volto para casa encantada – que, por sinal, rima com você.

Pensando bem, não deve ser por acaso. 😉

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